PORQUE É CHEGADO O ANO NOVO...



Chove no Pajeú. Noite de chuva forte, desde as 19:00 horas.
2006 não poderia ter encontrado um modo melhor para se despedir.
Isso sim é reveilão bão.





  • PASSAGEM DO ANO
    Carlos Drummond de Andrade

    O último dia do ano
    não é o último dia do tempo.
    Outros dias virão
    e novas coxas e ventres te comunicarão o
    [ calor da vida.
    Beijarás bocas, rasgarás papéis,
    farás viagens e tantas celebrações
    de aniversário, formatura, promoção, glória,
    [ doce morte com sinfonia e coral,
    que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
    [ clamor,
    os irreparáveis uivos
    do lobo, na solidão.

    O último dia do tempo
    não é o último dia de tudo.
    Fica sempre uma franja de vida
    onde se sentam dois homens.
    Um homem e seu contrário,
    uma mulher e seu pé,
    um corpo e sua memória,
    um olho e seu brilho,
    uma voz e seu eco,
    e quem sabe até se Deus...

    Recebe com simplicidade este presente do
    [ acaso.
    Mereceste viver mais um ano.
    Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
    [ séculos.
    Teu pai morreu, teu avô também.
    Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
    [ espreitam a morte,
    mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
    e de copo na mão
    esperas amanhecer.

    O recurso de se embriagar.
    O recurso da dança e do grito,
    o recurso da bola colorida,
    o recurso de Kant e da poesia,
    todos eles... e nenhum resolve.

    Surge a manhã de um novo ano.

    As coisas estão limpas, ordenadas.
    O corpo gasto renova-se em espuma.
    Todos os sentidos alerta funcionam.
    A boca está comendo vida.
    A boca está entupida de vida.
    A vida escorre da boca,
    lambuza as mãos, a calçada.
    A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.




  • Variações do mesmo tema/mandacaru florado- Tarcio Oliveira

    AS FORÇAS DA NATUREZA
    João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro

    Quando o Sol
    Se derramar em toda sua essência
    Desafiando o poder da ciência
    Pra combater o mal
    E o mar
    Com suas águas bravias
    Levar consigo o pó dos nossos dias
    Vai ser um bom sinal
    Os palácios vão desabar
    Sob a força de um temporal
    E os ventos vão sufocar o barulho infernal
    Os homens vão se rebelar
    Dessa farsa descomunal
    Vai voltar tudo ao seu lugar
    Afinal

    Vai resplandecer
    Uma chuva de prata do céu vai descer
    O esplendor da mata vai renascer
    E o ar de novo vai ser natural
    Vai florir
    Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
    Das ruínas um novo povo vai surgir
    E vai cantar afinal

    As pragas e as ervas daninhas
    As armas e os homens de mal
    Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval.



  • Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o NATAL.... [ VI ]


    Mãe e filho/ obra do Mestre Vitalino / Abril Imagens

    TRECHOS DE MORTE E VIDA SEVERINA
    João Cabral de Melo Neto

    - Seu José, mestre carpina,
    que lhe pergunte permita:
    há muito no lamaçal
    apodrece a sua vida?
    e a vida que tem vivido
    foi sempre comprada à vista?

    -Severino, retirante,
    sou de Nazaré da Mata,
    mas tanto lá como aqui
    jamais me fiaram nada:
    a vida de cada dia
    cada dia hei de comprá-la.

    -Seu José, mestre carpina,
    e que interesse, me diga,
    há nessa vida a retalho
    que é cada dia adquirida?
    espera poder um dia
    comprá-la em grandes partidas?

    -Severino, retirante,
    não sei bem o que lhe diga:
    não é que espere comprar
    em grosso tais partidas,
    mas o que compro a retalho
    é, de qualquer forma, vida.

    -Seu José, mestre carpina,
    que diferença faria
    se em vez de continuar
    tomasse a melhor saída:
    a de saltar, numa noite,
    fora da ponte e da vida?

    [ UMA MULHER, DA PORTA DE
    ONDE SAIU O HOMEM,
    ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ ]


    - Compadre José, compadre,
    que na relva estais deitado:
    conversais e não sabeis
    que vosso filho é chegado?
    Estais aí conversando
    em vossa prosa entretida:
    não sabeis que vosso filho
    saltou para dentro da vida?
    Saltou para dento da vida
    ao dar o primeiro grito
    e estais aí conversando
    pois sabeis que ele é nascido.



  • [ COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
    TRAZENDO PRESENTES PARA
    O RECÉM-NASCIDO ]

    - Minha pobreza tal é
    que não trago presente grande:
    trago para a mãe caranguejos
    pescados por esses mangues
    mamando leite de lama
    conservará nosso sangue.

    -Minha pobreza tal é
    que coisa alguma posso ofertar:
    somente o leite que tenho
    para meu filho amamentar
    aqui todos são irmãos,
    de leite, de lama, de ar.

    -Minha pobreza tal é
    que não tenho presente melhor:
    trago este papel de jornal
    para lhe servir de cobertor
    cobrindo-se assim de letras
    vai um dia ser doutor.

    -Minha pobreza tal é
    que não tenho presente caro:
    como não posso trazer
    um olho d'água de Lagoa do Cerro,
    trago aqui água de Olinda,
    água da bica do Rosário.

    -Minha pobreza tal é
    que grande coisa não trago:
    trago este canário da terra
    que canta sorrindo e de estalo.

    -Minha pobreza tal é
    que minha oferta não é rica:
    trago daquela bolacha d'água
    que só em Paudalho se fabrica.

    -Minha pobreza tal é
    que melhor presente não tem:
    dou este boneco de barro
    de Severino de Tracunhaém.

    -Minha pobreza tal é
    que pouco tenho o que dar:
    dou da pitu que o pintor Monteiro
    fabricava em Gravatá.

    -Trago abacaxi de Goiana
    e de todo o Estado rolete de cana.
    -Eis ostras chegadas agora,
    apanhadas no cais da Aurora.

    -Eis tamarindos da Jaqueira
    e jaca da Tamarineira.

    -Mangabas do Cajueiro
    e cajus da Mangabeira.

    -Peixe pescado no Passarinho,
    carne de boi dos Peixinhos.

    -Siris apanhados no lamaçal
    que já no avesso da rua Imperial.

    -Mangas compradas nos quintais ricos
    do Espinheiro e dos Aflitos.

    -Goiamuns dados pela gente pobre
    da Avenida Sul e da Avenida Norte.





  • [ FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
    VIERAM COM PRESENTES, ETC ]

    -De sua formosura
    já venho dizer:
    é um menino magro,
    de muito peso não é,
    mas tem o peso de homem,
    de obra de ventre de mulher.

    -De sua formosura
    deixai-me que diga:
    é uma criança pálida,
    é uma criança franzina,
    mas tem a marca de homem,
    marca de humana oficina.

    - Sua formosura
    deixai-me que cante:
    é um menino guenzo
    como todos os desses mangues,
    mas a máquina de homem
    já bate nele, incessante.

    -Sua formosura
    eis aqui descrita:
    é uma criança pequena,
    enclenque e setemesinha,
    mas as mãos que criam coisas
    nas suas já se adivinha.

    -De sua formosura
    deixai-me que diga:
    é belo como o coqueiro
    que vence a areia marinha.

    -De sua formosura
    deixai-me que diga:
    belo como o avelós
    contra o Agreste de cinza.

    -De sua formosura
    deixai-me que diga:
    belo como a palmatória
    na caatinga sem saliva.

    -De sua formosura
    deixai-me que diga:
    é tão belo como um sim
    numa sala negativa.

    -é tão belo como a soca
    que o canavial multiplica.

    -Belo porque é uma porta
    abrindo-se em mais saídas.


    -Belo como a última onda
    que o fim do mar sempre adia.

    -é tão belo como as ondas
    em sua adição infinita.

    -Belo porque tem do novo
    a surpresa e a alegria.

    -Belo como a coisa nova
    na prateleira até então vazia.

    -Como qualquer coisa nova
    inaugurando o seu dia.

    -Ou como o caderno novo
    quando a gente o principia.

    -E belo porque o novo
    todo o velho contagia.

    -Belo porque corrompe
    com sangue novo a anemia.

    -Infecciona a miséria
    com vida nova e sadia.

    -Com oásis, o deserto,
    com ventos, a calmaria.

    [ O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
    ESTEVE DE FORA,
    SEM TOMAR PARTE DE NADA ]

    -Severino, retirante,
    deixe agora que lhe diga:
    eu não sei bem a resposta
    da pergunta que fazia,
    se não vale mais saltar
    fora da ponte e da vida
    nem conheço essa resposta,
    se quer mesmo que lhe diga
    é difícil defender,
    só com palavras, a vida,
    ainda mais quando ela é
    esta que vê, severina
    mas se responder não pude
    à pergunta que fazia,
    ela, a vida, a respondeu
    com sua presença viva.

    E não há melhor resposta
    que o espetáculo da vida:
    vê-la desfiar seu fio,
    que também se chama vida,
    ver a fábrica que ela mesma,
    teimosamente, se fabrica,
    vê-la brotar como há pouco
    em nova vida explodida
    mesmo quando é assim pequena
    a explosão, como a ocorrida
    como a de há pouco, franzina
    mesmo quando é a explosão
    de uma vida severina.

    Leia o poema na íntegra aqui


  • Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o NATAL ...[V]


    Ilustração do mestre POTY

    MISSA DO GALO
    Machado de Assis


    Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
    A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

    Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

    Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
    - Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
    - Leio, D. Inácia.
    Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto,
    um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
    - Ainda não foi? Perguntou ela.
    - Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
    - Que paciência!
    Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
    - Não! qual! Acordei por acordar.
    Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
    - Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
    - Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
    - Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
    - Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
    - Justamente: é muito bonito.
    - Gosta de romances?
    - Gosto.
    - Já leu a Moreninha?
    - Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
    - Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
    Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
    - Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
    E logo alto:
    - D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
    - Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo.
    Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
    - Já tenho feito isso.
    - Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora
    que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
    - Que velha o quê, D. Conceição?
    Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia,isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
    - É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
    - Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...

    Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
    - Mais baixo! Mamãe pode acordar.
    E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas.
    Conceição disse baixinho:
    - Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
    - Eu também sou assim.
    - O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
    Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
    - Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
    - Foi o que lhe aconteceu hoje.
    - Não, não, atalhou ela.
    Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
    - Mais baixo, mais baixo...
    Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim
    embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em
    certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.
    Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
    - Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
    Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres.
    Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
    - São bonitos, disse eu.
    - Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
    - De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
    - Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim
    esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
    A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma
    atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
    - Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
    Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os
    por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
    Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo.
    Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
    - Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
    - Já serão horas? perguntei.
    - Naturalmente.
    - Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
    -Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
    E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido
    de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

    Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.

    -
    Aceita-se pitaco:



    PERNAMBUCANIDADES


    Foto: Caros Amigos

    Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado foi eleito pela APCA o melhor compositor de 2006.



  • Em 2004, numa entrevista para Caros Amigos, ele e Clayton responderam assim à pergunta:O rótulo de regional atrapalha?
    Lirinha: Totalmente. Passei dois anos batendo de frente com isso, era um absurdo, você vê: Milton Nascimento fez o disco Tambores de Minas e concorreu ao prêmio Sharp de melhor disco nacional. Vem o Hermeto Pascoal e é considerado nesse prêmio como regional, por ser nordestino. Que absurdo! Você vê discos de Chico Buarque totalmente influenciados pela região do Rio de Janeiro. Discos só de samba ou algo bossa que ganham conotação nacional. A gente faz um som lá em Pernambuco, aí é regional. Há uma idéia de um Nordeste arcaico, ultrapassado, antigo, conservador, e de um sudeste antenado, futurista, com ligações e aberturas... Isso é uma invenção! Uma invenção que tem amparo do conservadorismo político.

    Clayton Barros: Imagine como fica a região Norte. Inclusive, a gente nem faz show lá porque não tem uma demanda contratual. Imagine como ficam as pessoas de lá? Se o Nordeste é tratado dessa forma, imagine o Norte!



  • Uma composição de Lirinha:

    O amor é filme
    Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
    Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
    Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
    É drama, aventura, mentira, comédia romântica

    O amor é filme
    Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
    Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
    Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
    É drama, aventura, mentira, comédia romântica

    Um belo dia a a gente acorda e hum...
    Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio dois
    É quando a gente sente o amor se abuletar na gente tudo acabou bem,
    Agora o que vem depois

    O amor é filme
    Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
    Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
    Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
    É drama, aventura, mentira, comédia romântica

    É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
    E o mundo todo vira nós dois,
    Dois corações bandidos
    Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
    O Zoom in dá ré e sobem os créditos

    O amor é filme e Deus espectador!





  • Espelho cego / obra de Cildo Meireles

    Anunciados pelo Conselho Estadual de Cultura, os nomes dos três novos contemplados pela Lei do Patrimônio Vivo: O Clube de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite, a artista circense Índia Morena e o cordelista e xilogravurista José Costa Leite. Agora 15 pernambucanos fazem parte do Patrimônio Vivo, que concede bolsas vitalícias no valor de R$ 750 (artistas) e R$ 1500 (grupos). Em contrapartida, os contemplados assumem o compromisso de transmitir seus conhecimentos por meio de programas de ensino e aprendizagem promovidos pelo Governo do Estado.



  • Não discuto o mérito desses artistas mas questiono os critérios da escolha dos contemplados. Que abrangência de conhecimento da cultura produzida em todo Pernambuco têm os eleitores? Até agora somente mestres e grupos da capital e proximidades (até zona da mata/litoral) foram selecionados.
    É um reflexo da falta de visão e de informação sobre os inúmeros artistas e mestres que pelejam e permanecem isolados no interior do estado.É um reflexo da maldita concepção, estreita e preconceituosa, que divide e classifica por critérios nunca artísticos mas geográficos (?) o fazer cultural.




  • Música de Pernambuco,sítio novo da equipe de cultura do Governo Estadual, para ampliar o alcance dos diversos sons produzidos em PE.



  • Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o NATAL... [ IV ]



    Então é Natal...
    Euza Noronha

    Este texto deveria começar e terminar falando de amor, de esperança de alegrias. Porque são vésperas de Natal e segundo o cristianismo o nascimento de Cristo simboliza paz, amor e esperança . E também porque há um clima de festa verde e vermelha dançando no ar e pintando nossas almas de luzinhas multicoloridas como se fôssemos milhões de árvores de natal.
    Mas sou uma chata e não vou falar deste Natal festivo ou da simbologia religiosa desta comemoração. Vou falar desta festa cristã que, contrariando o próprio espírito cristão, faz crescer, dolorosa e assustadoramente, as diferenças sócio-econômicas das crianças deste nosso país.
    Você já imaginou a vida sem sonhos? Podemos até ter períodos em que os sonhos parecem correr de nós, mas no geral somos seres movidos pela esperança e pelos sonhos. Agora imagina como seria sua vida se não houvesse esperança de realizar sonhos? Ou pior: se você não soubesse sonhar!?
    Então é Natal... e existem milhões de crianças que não podem ou não sabem sonhar com o Papai Noel. As mesmas crianças que no dia de Natal verão o brilho das luzes refletidas em seus irmãos mais afortunados enquanto seus olhos se encompridarão e se fecharão na tristeza das mãos vazias e da esperança ausente. As mesmas crianças que ouvirão e não entenderão a canção que diz: como é que papai noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o presente sempre vem.
    Então é Natal... e a chata aqui não consegue estar inteiramente feliz com sua árvore super enfeitada de luzes e presentes, com sua ceia já programada, com o carinho dos amigos em forma de cartões e presença, com a borbulhante alegria da família reunida, com o sorriso de antecipação feliz que vê em cada rosto...
    Então é Natal... e desejo a você um Natal exatamente como você planejou, como você quer sua noite de Natal. Com todas as alegrias, todas as luzes e todos os sorrisos de Natal.
    E desejo mais. Desejo que você não se esqueça de acender uma luz no túnel de uma criança. Ainda que seja de uma única criança. Ainda que seja numa única noite.
    Porque é Natal.

    Texto publicado no blog:
    Um Blog para quem tem cérebro!

    Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o NATAL... [ III ]


    MEU PAPAI NOEL DE CASA.
    Dedé Monteiro

    Os sinos tocam contentes
    Aí Papai Noel sai
    Distribuindo presentes
    Como se fosse outro pai
    Durante essa missão sua
    Sobe rua desce rua
    Sobe morro, morro desce,
    Palmilha todo terreno
    Só meu casebre pequeno
    Papai Noel não conhece.

    É porque eu não conheço
    Onde Papai Noel mora
    Senão o meu endereço
    Eu ia enviar-lhe agora
    Escrevo um bilhetinho
    Conto bem direitinho
    Onde fica meu chalé
    Se dizem que ele adivinha
    Porque só minha casinha
    Ele não sabe onde é?

    Quer saber o que se dava
    Se papai fosse um ricaço?
    Papai Noel não errava
    As grades do meu terraço
    Rondava a casa por fora
    Entrava fora de hora
    Pela chaminé descia
    E em silêncio sorrindo
    Deixava um presente lindo
    Pegava o saco e saía.

    Chaminé muito enfeitada
    Minha palhoça não tem
    Mas duma lata amassada
    Papai fez uma também
    Mas se o senhor entender
    Que ela não vai lhe caber
    Eu deixo aberta a janela
    E se o senhor se cansar
    Achar que não deve entrar
    Jogue o presente por ela

    Reclamando desse jeito
    Posso até estar errado
    Pois meu mucambo foi feito
    Num lugar muito atrasado.
    Será que Papai Noel não passa
    Porque não tem luz nem praça
    Nem parque de diversão?
    Esse Papai Noel nobre
    Não liga menino pobre
    Que vive de pé no chão

    Meu papai que é mais humano
    Este ano me falou
    Se Deus quiser para o ano
    O seu presente eu mesmo dou

    Papai é homem de fato
    Não é papai de boato
    Como esse Noel que atrasa
    Meu papai é tão fiel
    Que não há Papai Noel
    Como o que tenho tenho em casa.

    Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o NATAL ... [ II ]



    Zero grau de Libra
    Caio Fernando Abreu

    Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.

    O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.

    Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em resposta.

    Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.

    Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.

    Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins.

    Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.

    (O Estado de S. Paulo, 24/09/86)

    Aceita-se pitaco:



    apideiti
    O Blogger/Globo.com devolveu meus pitacos.

    Não são muitos, mas esse negócio de... como é mesmo que se diz? fidibeque ? ...é fundamental num blog.
    É como aquela curiosidade que faz a gente gritar no despenhadeiro ou no poço, esperando o eco.
    ...
    Ahhh e eu tava com uma saudade danada desse zerinho na frente do aceita-se pitaco.
    ... Aceita-se pitaco:



    Porque é chegado o Natal...


    foto de Tarcio Oliveira / Lapinha da Casa da Cultura de Tuparetama

    Num meio-dia de fim de Primavera
    Alberto Caeiro

    VIII

    Num meio-dia de fim de Primavera
    Tive um sonho como uma fotografia.
    Vi Jesus Cristo descer à terra.
    Veio pela encosta de um monte
    Tornado outra vez menino,
    A correr e a rolar-se pela erva
    E a arrancar flores para as deitar fora
    E a rir de modo a ouvir-se de longe.

    Tinha fugido do céu.
    Era nosso demais para fingir
    De segunda pessoa da Trindade.
    No céu era tudo falso, tudo em desacordo
    Com flores e árvores e pedras.
    No céu tinha que estar sempre sério
    E de vez em quando de se tornar outra vez homem
    E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
    Com uma coroa toda à roda de espinhos
    E os pés espetados por um prego com cabeça,
    E até com um trapo à roda da cintura
    Como os pretos nas ilustrações.
    Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
    Como as outras crianças.
    O seu pai era duas pessoas -
    Um velho chamado José, que era carpinteiro,
    E que não era pai dele;
    E o outro pai era uma pomba estúpida,
    A única pomba feia do mundo
    Porque não era do mundo nem era pomba.
    E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

    Não era mulher: era uma mala
    Em que ele tinha vindo do céu.
    E queriam que ele, que só nascera da mãe,
    E nunca tivera pai para amar com respeito,
    Pregasse a bondade e a justiça!

    Um dia que Deus estava a dormir
    E o Espírito Santo andava a voar,
    Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
    Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
    Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
    Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
    E deixou-o pregado na cruz que há no céu
    E serve de modelo às outras.
    Depois fugiu para o Sol
    E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
    Hoje vive na minha aldeia comigo.
    É uma criança bonita de riso e natural.
    Limpa o nariz ao braço direito,
    Chapinha nas poças de água,
    Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
    Atira pedras aos burros,
    Rouba a fruta dos pomares
    E foge a chorar e a gritar dos cães.
    E, porque sabe que elas não gostam
    E que toda a gente acha graça,
    Corre atrás das raparigas
    Que vão em ranchos pelas estradas
    Com as bilhas às cabeças
    E levanta-lhes as saias.

    A mim ensinou-me tudo.
    Ensinou-me a olhar para as coisas.
    Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
    Mostra-me como as pedras são engraçadas
    Quando a gente as tem na mão
    E olha devagar para elas.

    Diz-me muito mal de Deus.
    Diz que ele é um velho estúpido e doente,
    Sempre a escarrar no chão
    E a dizer indecências.
    A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
    E o Espírito Santo coça-se com o bico
    E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
    Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
    Diz-me que Deus não percebe nada
    Das coisas que criou -
    Se é que ele as criou, do que duvido. -
    Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
    Mas os seres não cantam nada.
    Se cantassem seriam cantores.
    Os seres existem e mais nada,
    E por isso se chamam seres.»
    E depois, cansado de dizer mal de Deus,
    O Menino Jesus adormece nos meus braços
    E eu levo-o ao colo para casa.

    ......

    Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
    Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
    Ele é o humano que é natural,
    Ele é o divino que sorri e que brinca.
    E por isso é que eu sei com toda a certeza
    Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

    E a criança tão humana que é divina
    É esta minha quotidiana vida de poeta,
    E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
    E que o meu mínimo olhar
    Me enche de sensação,
    E o mais pequeno som, seja do que for,
    Parece falar comigo.

    A Criança Nova que habita onde vivo
    Dá-me uma mão a mim
    E a outra a tudo que existe
    E assim vamos os três pelo caminho que houver,
    Saltando e cantando e rindo
    E gozando o nosso segredo comum
    Que é o de saber por toda a parte
    Que não há mistério no mundo
    E que tudo vale a pena.

    A Criança Eterna acompanha-me sempre.
    A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
    O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
    São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

    Damo-nos tão bem um com o outro
    Na companhia de tudo
    Que nunca pensamos um no outro,
    Mas vivemos juntos e dois
    Com um acordo íntimo
    Como a mão direita e a esquerda.

    Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
    No degrau da porta de casa,
    Graves como convém a um deus e a um poeta,
    E como se cada pedra
    Fosse todo um universo
    E fosse por isso um grande perigo para ela
    Deixá-la cair no chão.

    Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
    E ele sorri, porque tudo é incrível.
    Ri dos reis e dos que não são reis,
    E tem pena de ouvir falar das guerras,
    E dos comércios, e dos navios
    Que ficam fumo no ar dos altos mares.
    Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
    Que uma flor tem ao florescer
    E que anda com a luz do Sol
    A variar os montes e os vales
    E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

    Depois ele adormece e eu deito-o.
    Levo-o ao colo para dentro de casa
    E deito-o, despindo-o lentamente
    E como seguindo um ritual muito limpo
    E todo materno até ele estar nu.

    Ele dorme dentro da minha alma
    E às vezes acorda de noite
    E brinca com os meus sonhos.
    Vira uns de pernas para o ar,
    Põe uns em cima dos outros
    E bate as palmas sozinho
    Sorrindo para o meu sono.

    ......

    Quando eu morrer, filhinho,
    Seja eu a criança, o mais pequeno.
    Pega-me tu ao colo
    E leva-me para dentro da tua casa.
    Despe o meu ser cansado e humano
    E deita-me na tua cama.
    E conta-me histórias, caso eu acorde,
    Para eu tornar a adormecer.
    E dá-me sonhos teus para eu brincar
    Até que nasça qualquer dia
    Que tu sabes qual é.

    ......

    Esta é a história do meu Menino Jesus.
    Por que razão que se perceba
    Não há-de ser ela mais verdadeira
    Que tudo quanto os filósofos pensam
    E tudo quanto as religiões ensinam?

    Aceita-se pitaco:



    Onde danado o Blogger / Globo.com enfiou os comentários deste blog ?!


    Aceita-se pitaco:



    Cultura de luto. Sivuca se foi.


    foto do site SIVUCA NA REDE

    Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca (Itabaiana, Paraíba, 26 de maio de 1930, João Pessoa, 14 de dezembro de 2006) foi um músico brasileiro.
    Além de compositor, Sivuca era um notável acordeonista (sanfoneiro).
    Sivuca contribuiu significativamente para o enriquecimento da música brasileira, sendo reconhecido internacionalmente por seu trabalho. Suas composições e trabalhos incluem, dentre outros ritmos, choros, frevos e forrós.

    Sua iniciação musical se deu na infância, tocando em feiras e festas populares já aos 9 anos de idade. Mudou-se para Recife aos quinze anos de idade, onde adotou seu nome artístico.

    Seu primeiro LP, em 1950, em parceira com Humberto Teixeira, continha o seu primeiro grande sucesso, Adeus, Maria Fulô (que foi regravado numa versão psicodélica pelos Mutantes, nos anos 60).

    A partir de 1955, foi morar no Rio de Janeiro. Após apresentações na Europa como arcodeonista dum grupo chamado Os Brasileiros, chegou a morar em Lisboa, Parise Nova York.

    Sivuca morreu ontem (14 de dezembro), depois de dois dias internado para tratamento de um câncer, que já o acometia desde 2004.

    Fonte: Wikipédia.
    Aceita-se pitaco:



    É difícil manter o otimismo
    com a raça humana e acreditar na evolução da sociedade sertaneja
    quando o sucesso eleito pela maior parte da população,
    escutado de som em som domiciliar, de bar em bar, de carro em carro, de boca em boca,
    é desse naipe do tal Tayrone Cigano.



    Uma pequena amostra das composições do artista. A voz e os arranjos não ficam por menos:

    Volta Amor
    Não sei o que é que eu faço sem o seu amor / Meu bem estou sozinho / Preciso de você
    Por deus como eu te quero/ Eu não posso te perder / Eu sinto muito a sua falta
    Muito a sua falta.
    Me dê mais uma chance que eu quero te mostrar / Como você pode me dar o seu amor
    Ciúmes que me fez eu não posso mais lembrar / Meu coração está em pedaços, está em pedaços
    Volte amor / Eu não mereço este castigo
    Pode até brigar comigo mas não me deixe nesta solidão /Volte amor
    Eu sinto a falta dos seus beijos /Vem matar o meu desejo
    Tirar essa dor de dentro do meu coração .

    Amor Vampiro
    Esse amor vampiro está me deixando louco
    Ela não tem pena do meu coração
    Chega de mansinho no meio da noite
    Me ama, me morde o pescoço, com tanta paixão
    Apaixonado, eu fico pensando
    Se ela é real ou estou apenas sonhando
    Assim desse jeito, o nosso amor acontece
    Ela só sai de mim, só sai de mim
    Depois que o dia amanhece
    Amor vampiro,
    Me deixando louco, com doce veneno
    Me deixa dormindo e eu quando acordo
    Estou sempre querendo.
    Aceita-se pitaco:




    Por favor filho querido
    me escute e pense bem,
    seu velho pai quer lhe dar
    o valor que você tem,
    você está na idade
    de alcançar a liberdade,
    de fazer sua vontade
    e tornar-se homem também.

    Tem muitas coisas, meu filho,
    que eu queira lhe dizer,
    lhe eduquei como podia,
    já cumpri com meu dever,
    você agora decida,
    o futuro lhe convida,
    eu gerei, Deus deu-lhe a vida,
    é você quem vai viver.

    Queira espinhos no começo,
    aguarde flores no fim,
    respeite o seu semelhante,
    siga o bom e deixe o ruim,
    por onde você passar
    reconheça o seu lugar,
    pra ninguém se envergonhar
    dum filho meu, nem de mim.

    Defenda a moral sem sangue,
    ajude a quem precisar,
    quando tiver precisão,
    peça um pão pra não roubar,
    ouça o velho, ame o menor,
    pense em Deus, faça o melhor,
    coma e vista do suor
    que seu rosto derramar.

    Não queira ouro roubado,
    nem amor por fantasia,
    escolha a mulher sincera,
    para a sua companhia,
    faça meu filho, o que eu fiz,
    veja como sou feliz,
    só casei com quem me quis
    e sua mãe com quem queria.

    O mundo tem dois caminhos,
    um é certo, outro é errado,
    na escolha de um deles,
    é preciso ter cuidado,
    se você não escolheu
    um deles pra ser o seu,
    se quiser seguir o meu,
    o exemplo é meu passado.

    Mesmo na maior idade,
    quero estar sempre contigo,
    lhe ensinando bons caminhos,
    lhe livrando do perigo,
    estando perto ou distante,
    não lhe deixo um só instante,
    porque de agora em diante,
    além de pai, sou amigo.

    Corra o mundo, faça amigos,
    conheça o que conheci,
    transmita o que ensinei,
    conquiste o que eu consegui,
    aproveite a juventude,
    ame a paz, honre a virtude,
    quando quiser quem lhe ajude,
    seu velho pai está aqui.

    Aproveite a juventude,
    ame a paz, honre a virtude,
    quando quiser quem lhe ajude,
    seu velho pai está aqui.

    Aceita-se pitaco:



    Achei genial esta campanha publicitária do Milênio. [Un mundo tan complejo necesita una buena explicacion]
    Mas não é estranho que uma campanha de um grupo de notícias se proponha a confirmar a máxima uma imagem vale mais que mil palavras ?







    Aceita-se pitaco:




    Daqui a poucos dias (01 de janeiro) completam-se 2 anos de administração do prefeito de sua cidade e equipe.
    Meio mandato consumido e você já avaliou esse gestor?


    [ ] Discute o Orçamento na comunidade e respeita as decisões?
    [ ] Está pagando o salário aos funcionários?
    [ ] Melhoraram os serviços de saúde?
    [ ] Criou propostas/programas/projetos/alternativas para empregos e geração de renda?
    [ ] Está preocupado com o desenvolvimento sustentável?
    [ ] Vê a cultura como algo além de datas festivas e shows de inaugurações de obras?
    [ ] Faz o que compete à prefeitura, na limpeza urbana?
    [ ] É um governo transparente? Você sabe quanto ele gasta, como e em que?
    [ ] Tem parentes empregados em cargos de confiança?
    [ ] A verba da educação está sendo utilizada na educação?
    [ ] A merenda melhorou? Os professores são valorizados?
    [ ] As escolas têm recebido a atenção necessária?
    [ ] As praças são cuidadas, as árvores respeitadas, os espaços públicos estão acessíveis?
    [ ] Implantou ou manteve políticas especiais para idosos, crianças e pessoas portadoras de deficiências?
    [ ] Construiu novas obras que trarão melhor qualidade de vida para a comunidade?
    [ ] As comunidades rurais e o homem do campo, em especial o pequeno produtor, têm recebido a atenção e apoio necessários?
    [ ] A assistência social tem chegado aos que precisam dela?

    A responsabilidade do cidadão com o governo de seu município não acaba no ato do voto, deve ser um exercício diário e permanente.

    Querer um lugar melhor para viver exige muito de cada um de nós.

    Olhe ao seu redor. Está satisfeito?

    Se a resposta é NÃO é porque todos estão fazendo pouco ou poucos estão fazendo o que é necessário.


    Aceita-se pitaco:



    Porque hoje é o primeiro domingo de dezembro,
    o primeiro dos cartões natalinos de Raimundo:



    montagem a partir de foto publicitária da Rare Clothes

    Aceita-se pitaco:



    Entre o bordado, a bala e a prece
    Lampião e seu bando transfiguravam para a eternidade o Ser Sertanejo.



    Imagem na exposição sobre o Cangaço, no MIS-SP. Clica aqui pra ver outras imagens da exposição.

    E nem duvide, o sertanejo é um iconoclasta.
    Por isso tome lá este clássico do cordel,
    A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO
    :

    Um cabra de Lampião
    por nome Pilão Deitado
    que morreu numa trincheira
    um certo tempo passado
    agora pelo sertão
    anda correndo visão
    fazendo malassombrado.

    E foi quem trouxe a notícia
    que viu Lampião chegar
    o inferno nesse dia
    faltou pouco pra virar
    incendiou-se o mercado
    morreu tanto cão queimado
    que faz pena até contar.

    Morreram a mãe Conguinha
    o pai Forrobodó
    cem netos de Parafuso
    um cão chamado Cotó
    escapuliu Boca Ensoça
    e uma moleca moça
    quase queimava o totó

    Morreram cem negros velhos
    que não trabalhavam mais
    um cão chamado Traz Cá
    Vira-Volta e Capataz
    Tromba Suja e Bigodeira
    um cão chamado Goteira
    cunhado de satanás.

    Vamos tratar na chegada
    quando Lampião bateu
    um moleque ainda moço
    no portão apareceu:
    Quem é você, cavalheiro?
    Moleque, eu sou cangaceiro:
    Lampião lhe respondeu.

    - Moleque, não; sou vigia
    e não sou seu pareceiro
    e você aqui não entra
    sem dizer quem é o primeiro:
    - Moleque, abra o portão
    saiba que sou Lampião
    assombro do mundo inteiro.

    Então esse tal vigia
    que trabalha no portão
    dá pisa que voa cinza
    não procura distinção
    o negro, escreveu não leu
    o macaiba comeu
    ali não se usa perdão.

    O vigia disse assim:
    fique fora que eu entro
    vou conversar com o chefe
    no gabinete do centro
    por certo ele não lhe quer
    mas conforme o que disser
    eu levo o senhor pra dentro.

    Lampião disse: vá logo
    quem conversa perde hora
    vá depressa e volte já
    eu quero pouca demora
    se não me derem ingresso
    eu viro tudo asavesso
    toco fogo e vou embora.

    O vigia foi e disse
    a satanás no salão:
    saiba a vossa senhoria
    que aí chegou Lampião
    dizendo que quer entrar
    e eu vim lhe perguntar
    se dou-lhe ingresso ou não.

    - Não senhor, satanás disse
    vá dizer que vá embora
    só me chega gente ruim
    eu ando muito caipora!
    eu já estou com vontade
    de botar mais da metade
    dos que tem aqui pra fora.

    - Lampião é um bandido
    ladrão da honestidade
    só vem desmoralizar
    a nossa propriedade
    e eu não vou procurar
    sarna pra me coçar
    sem haver necessidade.

    Disse o vigia: patrão
    a coisa vai arruinar
    eu sei que ele se dana
    quando não puder entrar
    satanás disse: isso é nada
    convide aí a negrada
    e leve os que precisar

    - Leve cem dúzias de negros
    entre homem e mulher
    vá lá na loja de ferragem
    tire as armas que quiser
    é bom avisar também
    pra vir os negros que tem
    mais compadre de Lucifer

    E reuniu-se a negrada
    primeiro chegou Fuchico
    com o bacamarte velho
    gritando por Cão de Bico
    que trouxesse o Pau de Prensa
    e fosse chamar Tangença
    em casa de Maçarico.

    E depois chegou Cambota
    endireitando o boné
    Formigueiro e Trupe-Zupe
    e o crioulo Quelé
    chegou Caé e Pacáia
    Rabisca e Cordão de Saia
    e foram chamar Bazé.

    Veio uma diaba moça
    com a calçola de meia
    puxou a vara da cerca
    dizendo: a coisa está feia
    hoje o negócio se dana!
    E gritou: êta baiana
    agora a ripa vadeia!

    E saiu a tropa armada
    em direção do terreiro
    com faca, pistola e facão
    cravinote e granadeiro
    uma negra também vinha
    com a trempe da cozinha
    e o pau de bater tempero.

    Quando Lampião deu fé
    da tropa negra encostada
    disse: só na Abissínia
    oh! tropa preta danada!
    o chefe do batalhão
    gritou de arma na mão;
    - Toca-lhe fogo, negrada!

    Nessa voz ouviu-se tiros
    que só pipoca no caco
    Lampião pulava tanto
    que parecia um macaco
    tinha um negro neste meio
    que durante o tiroteio
    brigou tomando tabaco.

    Acabou-se o tiroteio
    por falta de munição
    mas o cacête batia
    negro rolava no chão
    pau e pedra que achavam
    era o que as mãos pegavam
    sacudiam em Lampião.

    - Chega traz um armamento!
    (assim gritava o vigia)
    traz a pá de mexer doce
    lasca os ganchos de caria
    traz um bilro de Macau
    corre, vai buscar um pau
    na cêrca da padaria!

    Lucifer mais satanás
    vieram olhar do terraço
    todos contra Lampião
    de cacête, faca e braço
    o comandante no grito
    dizia: briga bonito
    negrada, chega-lhe o aço!

    Lampião pôde apanhar
    uma caveira de boi
    sacudiu na testa dum
    ele só fez dizer: oi!...
    Ainda correu dez braças
    e caiu enchedo as calças
    mas eu não sei dizer o que foi.

    Estava travada a luta
    duma hora já fazia
    a poeira cobria tudo
    negro embolava e gemia
    porém Lampião ferido
    ainda não tinha sido
    devido a grande energia.

    Lampião pegou um seixo
    e rebolou-o num cão
    mos o que; arrebentou
    a vidraça do oitão
    saiu fogo azulado
    incendiou o mercado
    e o armazém de algodão.

    Satanás com esse incêndio
    tocou no búzio chamando
    corretam todos os negros
    que se achavam brigando
    Lampião pegou a olhar
    não vendo com quem brigar
    também foi se retirando.

    Houve grande prejuízo
    no inferno nesse dia
    queimou-se todo dinheiro
    que satanás possuia
    queimou-se o livro de pontos
    perdeu-se vinte mil contos
    somente em mercadoria.

    Reclamava Lucifer: horror mais não precisa
    os anos ruins de safra
    agora mais esta pisa
    se não houver bom inverno
    tão cedo aqui no inferno
    ninguém compra uma camisa.

    Leitores, vou terminar
    tratando de Lampião
    muito embora que não possa
    vos dar a explicação
    no inferno não ficou
    no céu também não entrou
    por certo está no sertão.

    Quem duvida desta história
    pensar que não foi assim
    querer zombar do meu sério
    não acreditando em mim
    vá comprar papel moderno
    escreva para o inferno
    mande saber de Caim.

    José Pacheco



    Aceita-se pitaco:



    01 de dezembro- Dia Mundial de Luta contra a Aids



    Este ano a campanha brasileira do Dia Mundial de Luta contra a Aids tem como slogan A vida é mais forte que a aids. O objetivo é reforçar por meio da informação o combate à discriminação, o preconceito e o estigma que envolve a doença. Pela primeira vez a campanha será protagonizada por pessoas comuns que vivem com o HIV.

    Mais sobre o Dia Mundial de Luta contra a Aids / sobre Aids:
    Como surgiu o Dia Mundial de Luta contra a Aids e o símbolo do laço vermelho
    Dia Mundial de Luta contra a Aids em Pernambuco
    Portal da AIDS / Governo Federal

    Aceita-se pitaco:




    Mariana e Leonardo solicitam um mico publicável.
    Como sou estabanado, atrapalhado, desligado e desmemoriado, eis que quem vos escreve é o REI DOS MICOS.

    Sou daqueles estabanados incorrigíveis, que piora quanto mais se esforça para agir com cuidado e atenção. Derrubo, derramo ou quebro quase tudo que chega às minhas mãos; tropeço até nos meus próprios pés; me machuco, me corto e me arranho nas coisas e nas situações mais improváveis. Por conta dessas características motoras e orgânicas tão especiais, os micos são inúmeros.

    Alguns deles:

    Já trombei a cara num poste, no centro da cidade, com muitas pessoas ao redor presenciando o acontecimento;
    Já fiz tudo que é cena de pastelão nas minhas poucas idas à capital, Recife: Caí em escada rolante, derrubei prateleiras de produtos em supermercado, me enganchei minutos intermináveis em roleta de ônibus lotado e trombei inúmeras vezes em portas de vidro, dessas malditas que estão em quase todas as lojas.

    Também por ser estabanado, atrapalhado, desligado e desmemoriado nem queiram imaginar quantos micos paguei aprendendo andar de bicicleta (já adulto) e a dirigir.
    Foi um período farto.
    Ainda hoje admiro a coragem de quem conhece minhas habilidades de motorista e aceita uma carona comigo. Troco os pedais, erro de marcha, dou sinais de luz ao contrário e por amor à sua vida não queira estar perto de meu carro quando invento de dar ré. Felizmente o trânsito da cidade onde moro é calmo, calmo.

    Dois micos específicos, para fechar o post:

    Certa feita, novamente na capital, fui jantar num restaurante chinês em Boa Viagem, com amigos de Tuparetama.
    Para não assustar nosso paladar, pedimos peixe.
    Eu gosto de peixe, mas o bichinho é coisa rara nas mesas do Pajeú e tenho traumas seculares por me engasgar duas vezes com espinhas, situações que me deixaram à beira da morte, roxo sem ar, acudido por familiares e vizinhos com sopradas no nariz, farinha seca, banana em rodelas, murros nas costas.
    Pois bem, a certa altura do jantar senti uma espetada na goela! Pronto! Levantei-me da cadeira num segundo, derrubei tudo à minha volta, cuspi sobre a mesa o restante da comida que estava na boca, levei as mãos à garganta e saí correndo para o banheiro.
    Acho que os fregueses e garçons não entenderam nada ou ficaram assustados, imaginando que eu estivesse envenenado. Como meus amigos já conhecem meu histórico, riram e aguardaram minha volta.
    Eu com a cara mais lisa do mundo: Pensei que fosse uma espinha de peixe, mas não encontrei nada na garganta, não.

    O outro mico-escândalo eu paguei durante uma missa dominical, na igreja da minha cidade, quando eu ainda me sentia católico e tinha menos de vinte anos.
    Um besouro daqueles grandes, pretos e barulhentos entrou por uma das janelas laterais da igreja e veio se estatelar em cima de mim. Não tenho medo de cobras, não tenho medo de sapos, não tenho medo de onça, não tenho medo baratas, não tenho medo nem aversão a nenhum desses bichos que a unanimidade repele. Mas me cago de medo de besouro e tanajura.
    Claro que eu me controlo em público para não macular minha imagem, demonstrando o pavor desses bichinhos.
    Acontece que naquele momento eu estava cochilando profundamente graças ao sermão do padre, maçante. E acordei com o barulho, com a pancada do bicho. Atordoado, julgando-me sozinho em casa, no reflexo pulei sobre o banco da igreja sacudindo a roupa e gritando desesperado. Interrompi a missa, o sermão, o silêncio da igreja.
    Todos se voltaram para mim e ainda hoje lembro a cara dos fiéis, como quem pensa: Realmente esse moço não é normal.





    Aceita-se pitaco:



    PROGRAMAÇO!

    Gostas de arte, de dança?
    Estás na capital ou perto de lá?
    Não percas então o resultado desse trabalho da COMPASSOS, onde tem o dedo dos meus queridos inquietos Tio Branco e Saulo.

    EM ANEXO
    Teatro Armazém | 20h
    24 de novembro a 3 de dezembro de 2006 (sextas, sábados e domingos)
    Coreografia: Saulo Uchôa
    Trilha Sonora Original: Marcelo Sena
    Compassos Cia. de Danças



    Aceita-se pitaco:



    Me Revelar



    Composição: C. Oyens e Zelia Duncan

    Tudo aqui quer me revelar
    Minha letra , minha roupa, meu paladar
    O que eu não digo, o que eu afirmo
    Onde eu gosto de ficar
    Quando amanheço, quando me esqueço
    Quando morro de medo do mar
    Tudo aqui
    Quer me revelar
    Unhas roídas
    Ausências, visitas
    Cores na sala de estar
    O que eu procuro
    O que eu rejeito
    O que eu nunca vou recusar.

    Tudo em mim quer me revelar
    Tudo em mim quer me revelar

    Meu grito, meu beijo
    Meu jeito de desejar
    O que me preocupa, o que me ajuda
    O que eu escolho pra amar
    Quando amanheço, quando me esqueço
    Tudo em mim quer me revelar.
    Aceita-se pitaco:




    De Geraldo Amâncio:

    Eu fui tomar emprestado
    Dinheiro num banco em frente
    Chegando lá, o gerente
    Me interrogou, abusado.
    Perguntou se eu tinha gado,
    Eu respondi: Tenho não
    Quem tem gado é meu patrão;
    Eu só tenho sofrimento
    E trago meu documento
    Na palma da minha mão.

    Verso de improviso numa cantoria em Cajazeiras-PB, atendendo ao mote
    EU TENHO MEU DOCUMENTO/NA PALMA DA MINHA MÃO


    ---

    De Sebastião da Silva:

    Essa mulher que foi minha
    Provocou minha desgraça
    Hoje pela rua passa
    Zomba do amor que eu tinha
    Dar-lhe um título de Rainha
    Era o que eu pretendia
    Mas ela não merecia
    Viver ao lado de um rei,
    A boca que mais beijei
    Hoje me nega um bom dia.

    ---
    De Jó Patriota:

    Eu na derradeira ânsia
    Guardarei no coração
    As paisagens do sertão
    Que contemplei na infância.
    Dos ventos, a ressonância;
    Das águas, a sinfonia;
    As cores do fim do dia,
    O rosto da lua nova,
    Morrendo levo pra cova
    Os sinais da poesia.

    Aceita-se pitaco:



    foto: Fenapef

    Severino Cavalcanti, que não foi eleito e ficou na suplência, pode voltar a ocupar uma cadeira na Câmara Federal, a vaga do deputado sertanejo Gonzaga Patriota, reeleito.
    Há rumores de que Gonzaga assumirá uma secretaria no governo de Eduardo Campos.
    Nesse caso todos perdem:
    Perde quem votou em Gonzaga (e não em Severino) para deputado.
    Perde a região já que Gonzaga é um legislador acima da média e voltado para as necessidades locais.
    Perde o Brasil com Severino lá novamente.


    Aceita-se pitaco:

    Nunca é cedo demais para começar: