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Domingo, Dezembro 31, 2006
PORQUE É CHEGADO O ANO NOVO...
Chove no Pajeú. Noite de chuva forte, desde as 19:00 horas.
2006 não poderia ter encontrado um modo melhor para se despedir.
Isso sim é reveilão bão.
PASSAGEM DO ANO
Carlos Drummond de Andrade
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
Variações do mesmo tema/mandacaru florado- Tarcio Oliveira
AS FORÇAS DA NATUREZA
João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro
Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal
Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar o barulho infernal
Os homens vão se rebelar
Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal
Vai resplandecer
Uma chuva de prata do céu vai descer
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural
Vai florir
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal
As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval.
Aceita-se pitaco:
Segunda-feira, Dezembro 25, 2006
Porque é chegado o NATAL.... [ VI ]
Mãe e filho/ obra do Mestre Vitalino / Abril Imagens
TRECHOS DE MORTE E VIDA SEVERINA
João Cabral de Melo Neto
- Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
-Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
-Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
-Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
-Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?
[ UMA MULHER, DA PORTA DE
ONDE SAIU O HOMEM,
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ ]
- Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.
[ COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
TRAZENDO PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO ]
- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
-Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
-Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
-Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
-Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.
-Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
-Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
-Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
-Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
-Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
-Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
-Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
-Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
-Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.
-Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
-Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.
[ FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
VIERAM COM PRESENTES, ETC ]
-De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
- Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
-Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
-é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
- Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
-Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
-é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
-Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
-Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
-Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
-Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
-E belo porque o novo
todo o velho contagia.
-Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
-Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
-Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
[ O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA ]
-Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Leia o poema na íntegra aqui
Aceita-se pitaco:
Domingo, Dezembro 24, 2006
Porque é chegado o NATAL ...[V]
Ilustração do mestre POTY
MISSA DO GALO
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto,
um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo.
Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora
que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia,isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas.
Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
- Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim
embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em
certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.
Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres.
Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita coisa assim
esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma
atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os
por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo.
Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido
de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
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Aceita-se pitaco:
Sábado, Dezembro 23, 2006
PERNAMBUCANIDADES
Foto: Caros Amigos
Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado foi eleito pela APCA o melhor compositor de 2006.
Em 2004, numa entrevista para Caros Amigos, ele e Clayton responderam assim à pergunta: O rótulo de regional atrapalha?
Lirinha: Totalmente. Passei dois anos batendo de frente com isso, era um absurdo, você vê: Milton Nascimento fez o disco Tambores de Minas e concorreu ao prêmio Sharp de melhor disco nacional. Vem o Hermeto Pascoal e é considerado nesse prêmio como regional, por ser nordestino. Que absurdo! Você vê discos de Chico Buarque totalmente influenciados pela região do Rio de Janeiro. Discos só de samba ou algo bossa que ganham conotação nacional. A gente faz um som lá em Pernambuco, aí é regional. Há uma idéia de um Nordeste arcaico, ultrapassado, antigo, conservador, e de um sudeste antenado, futurista, com ligações e aberturas... Isso é uma invenção! Uma invenção que tem amparo do conservadorismo político.
Clayton Barros: Imagine como fica a região Norte. Inclusive, a gente nem faz show lá porque não tem uma demanda contratual. Imagine como ficam as pessoas de lá? Se o Nordeste é tratado dessa forma, imagine o Norte!
Uma composição de Lirinha:
O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica
O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica
Um belo dia a a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio dois
É quando a gente sente o amor se abuletar na gente tudo acabou bem,
Agora o que vem depois
O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica
É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O Zoom in dá ré e sobem os créditos
O amor é filme e Deus espectador!
Espelho cego / obra de Cildo Meireles
Anunciados pelo Conselho Estadual de Cultura, os nomes dos três novos contemplados pela Lei do Patrimônio Vivo: O Clube de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite, a artista circense Índia Morena e o cordelista e xilogravurista José Costa Leite. Agora 15 pernambucanos fazem parte do Patrimônio Vivo, que concede bolsas vitalícias no valor de R$ 750 (artistas) e R$ 1500 (grupos). Em contrapartida, os contemplados assumem o compromisso de transmitir seus conhecimentos por meio de programas de ensino e aprendizagem promovidos pelo Governo do Estado.
Não discuto o mérito desses artistas mas questiono os critérios da escolha dos contemplados. Que abrangência de conhecimento da cultura produzida em todo Pernambuco têm os eleitores? Até agora somente mestres e grupos da capital e proximidades (até zona da mata/litoral) foram selecionados.
É um reflexo da falta de visão e de informação sobre os inúmeros artistas e mestres que pelejam e permanecem isolados no interior do estado.É um reflexo da maldita concepção, estreita e preconceituosa, que divide e classifica por critérios nunca artísticos mas geográficos (?) o fazer cultural.
Música de Pernambuco,sítio novo da equipe de cultura do Governo Estadual, para ampliar o alcance dos diversos sons produzidos em PE.
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
Porque é chegado o NATAL... [ IV ]
Então é Natal...
Euza Noronha
Este texto deveria começar e terminar falando de amor, de esperança de alegrias. Porque são vésperas de Natal e segundo o cristianismo o nascimento de Cristo simboliza paz, amor e esperança . E também porque há um clima de festa verde e vermelha dançando no ar e pintando nossas almas de luzinhas multicoloridas como se fôssemos milhões de árvores de natal.
Mas sou uma chata e não vou falar deste Natal festivo ou da simbologia religiosa desta comemoração. Vou falar desta festa cristã que, contrariando o próprio espírito cristão, faz crescer, dolorosa e assustadoramente, as diferenças sócio-econômicas das crianças deste nosso país.
Você já imaginou a vida sem sonhos? Podemos até ter períodos em que os sonhos parecem correr de nós, mas no geral somos seres movidos pela esperança e pelos sonhos. Agora imagina como seria sua vida se não houvesse esperança de realizar sonhos? Ou pior: se você não soubesse sonhar!?
Então é Natal... e existem milhões de crianças que não podem ou não sabem sonhar com o Papai Noel. As mesmas crianças que no dia de Natal verão o brilho das luzes refletidas em seus irmãos mais afortunados enquanto seus olhos se encompridarão e se fecharão na tristeza das mãos vazias e da esperança ausente. As mesmas crianças que ouvirão e não entenderão a canção que diz: como é que papai noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre o presente sempre vem.
Então é Natal... e a chata aqui não consegue estar inteiramente feliz com sua árvore super enfeitada de luzes e presentes, com sua ceia já programada, com o carinho dos amigos em forma de cartões e presença, com a borbulhante alegria da família reunida, com o sorriso de antecipação feliz que vê em cada rosto...
Então é Natal... e desejo a você um Natal exatamente como você planejou, como você quer sua noite de Natal. Com todas as alegrias, todas as luzes e todos os sorrisos de Natal.
E desejo mais. Desejo que você não se esqueça de acender uma luz no túnel de uma criança. Ainda que seja de uma única criança. Ainda que seja numa única noite.
Porque é Natal.
Texto publicado no blog:
Aceita-se pitaco:
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
Porque é chegado o NATAL... [ III ]
MEU PAPAI NOEL DE CASA.
Dedé Monteiro
Os sinos tocam contentes
Aí Papai Noel sai
Distribuindo presentes
Como se fosse outro pai
Durante essa missão sua
Sobe rua desce rua
Sobe morro, morro desce,
Palmilha todo terreno
Só meu casebre pequeno
Papai Noel não conhece.
É porque eu não conheço
Onde Papai Noel mora
Senão o meu endereço
Eu ia enviar-lhe agora
Escrevo um bilhetinho
Conto bem direitinho
Onde fica meu chalé
Se dizem que ele adivinha
Porque só minha casinha
Ele não sabe onde é?
Quer saber o que se dava
Se papai fosse um ricaço?
Papai Noel não errava
As grades do meu terraço
Rondava a casa por fora
Entrava fora de hora
Pela chaminé descia
E em silêncio sorrindo
Deixava um presente lindo
Pegava o saco e saía.
Chaminé muito enfeitada
Minha palhoça não tem
Mas duma lata amassada
Papai fez uma também
Mas se o senhor entender
Que ela não vai lhe caber
Eu deixo aberta a janela
E se o senhor se cansar
Achar que não deve entrar
Jogue o presente por ela
Reclamando desse jeito
Posso até estar errado
Pois meu mucambo foi feito
Num lugar muito atrasado.
Será que Papai Noel não passa
Porque não tem luz nem praça
Nem parque de diversão?
Esse Papai Noel nobre
Não liga menino pobre
Que vive de pé no chão
Meu papai que é mais humano
Este ano me falou
Se Deus quiser para o ano
O seu presente eu mesmo dou
Papai é homem de fato
Não é papai de boato
Como esse Noel que atrasa
Meu papai é tão fiel
Que não há Papai Noel
Como o que tenho tenho em casa.
Aceita-se pitaco:
Terça-feira, Dezembro 19, 2006
Porque é chegado o NATAL ... [ II ]
Zero grau de Libra
Caio Fernando Abreu
Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.
O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente, porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Nesse Zero Grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o Planeta Terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do Cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com Fanta e Guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete"? e o outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se ver, nesses lugares onde um outro ser humano vai se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto. Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na capital. Deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins.
Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma, sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões. Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio. Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse Zero Grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.
(O Estado de S. Paulo, 24/09/86)
Aceita-se pitaco:
Terça-feira, Dezembro 19, 2006
apideiti
O Blogger/Globo.com devolveu meus pitacos.
Não são muitos, mas esse negócio de... como é mesmo que se diz? fidibeque ? ...é fundamental num blog.
É como aquela curiosidade que faz a gente gritar no despenhadeiro ou no poço, esperando o eco.
...
Ahhh e eu tava com uma saudade danada desse zerinho na frente do aceita-se pitaco.
...
Aceita-se pitaco:
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Porque é chegado o Natal...
foto de Tarcio Oliveira / Lapinha da Casa da Cultura de Tuparetama
Num meio-dia de fim de Primavera
Alberto Caeiro
VIII
Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
Se é que ele as criou, do que duvido. -
Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
......
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
......
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
......
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Aceita-se pitaco:
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Onde danado o Blogger / Globo.com enfiou os comentários deste blog ?!
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 15, 2006
Cultura de luto. Sivuca se foi.
foto do site SIVUCA NA REDE
Severino Dias de Oliveira, mais conhecido como Sivuca (Itabaiana, Paraíba, 26 de maio de 1930, João Pessoa, 14 de dezembro de 2006) foi um músico brasileiro.
Além de compositor, Sivuca era um notável acordeonista (sanfoneiro).
Sivuca contribuiu significativamente para o enriquecimento da música brasileira, sendo reconhecido internacionalmente por seu trabalho. Suas composições e trabalhos incluem, dentre outros ritmos, choros, frevos e forrós.
Sua iniciação musical se deu na infância, tocando em feiras e festas populares já aos 9 anos de idade. Mudou-se para Recife aos quinze anos de idade, onde adotou seu nome artístico.
Seu primeiro LP, em 1950, em parceira com Humberto Teixeira, continha o seu primeiro grande sucesso, Adeus, Maria Fulô (que foi regravado numa versão psicodélica pelos Mutantes, nos anos 60).
A partir de 1955, foi morar no Rio de Janeiro. Após apresentações na Europa como arcodeonista dum grupo chamado Os Brasileiros, chegou a morar em Lisboa, Parise Nova York.
Sivuca morreu ontem (14 de dezembro), depois de dois dias internado para tratamento de um câncer, que já o acometia desde 2004.
Fonte: Wikipédia.
Aceita-se pitaco:
Quarta-feira, Dezembro 13, 2006
É difícil manter o otimismo
com a raça humana e acreditar na evolução da sociedade sertaneja
quando o sucesso eleito pela maior parte da população,
escutado de som em som domiciliar, de bar em bar, de carro em carro, de boca em boca,
é desse naipe do tal Tayrone Cigano.
Uma pequena amostra das composições do artista. A voz e os arranjos não ficam por menos:
Volta Amor
Não sei o que é que eu faço sem o seu amor / Meu bem estou sozinho / Preciso de você
Por deus como eu te quero/ Eu não posso te perder / Eu sinto muito a sua falta
Muito a sua falta.
Me dê mais uma chance que eu quero te mostrar / Como você pode me dar o seu amor
Ciúmes que me fez eu não posso mais lembrar / Meu coração está em pedaços, está em pedaços
Volte amor / Eu não mereço este castigo
Pode até brigar comigo mas não me deixe nesta solidão /Volte amor
Eu sinto a falta dos seus beijos /Vem matar o meu desejo
Tirar essa dor de dentro do meu coração .
Amor Vampiro
Esse amor vampiro está me deixando louco
Ela não tem pena do meu coração
Chega de mansinho no meio da noite
Me ama, me morde o pescoço, com tanta paixão
Apaixonado, eu fico pensando
Se ela é real ou estou apenas sonhando
Assim desse jeito, o nosso amor acontece
Ela só sai de mim, só sai de mim
Depois que o dia amanhece
Amor vampiro,
Me deixando louco, com doce veneno
Me deixa dormindo e eu quando acordo
Estou sempre querendo.
Aceita-se pitaco:
Quinta-feira, Dezembro 07, 2006
Por favor filho querido
me escute e pense bem,
seu velho pai quer lhe dar
o valor que você tem,
você está na idade
de alcançar a liberdade,
de fazer sua vontade
e tornar-se homem também.
Tem muitas coisas, meu filho,
que eu queira lhe dizer,
lhe eduquei como podia,
já cumpri com meu dever,
você agora decida,
o futuro lhe convida,
eu gerei, Deus deu-lhe a vida,
é você quem vai viver.
Queira espinhos no começo,
aguarde flores no fim,
respeite o seu semelhante,
siga o bom e deixe o ruim,
por onde você passar
reconheça o seu lugar,
pra ninguém se envergonhar
dum filho meu, nem de mim.
Defenda a moral sem sangue,
ajude a quem precisar,
quando tiver precisão,
peça um pão pra não roubar,
ouça o velho, ame o menor,
pense em Deus, faça o melhor,
coma e vista do suor
que seu rosto derramar.
Não queira ouro roubado,
nem amor por fantasia,
escolha a mulher sincera,
para a sua companhia,
faça meu filho, o que eu fiz,
veja como sou feliz,
só casei com quem me quis
e sua mãe com quem queria.
O mundo tem dois caminhos,
um é certo, outro é errado,
na escolha de um deles,
é preciso ter cuidado,
se você não escolheu
um deles pra ser o seu,
se quiser seguir o meu,
o exemplo é meu passado.
Mesmo na maior idade,
quero estar sempre contigo,
lhe ensinando bons caminhos,
lhe livrando do perigo,
estando perto ou distante,
não lhe deixo um só instante,
porque de agora em diante,
além de pai, sou amigo.
Corra o mundo, faça amigos,
conheça o que conheci,
transmita o que ensinei,
conquiste o que eu consegui,
aproveite a juventude,
ame a paz, honre a virtude,
quando quiser quem lhe ajude,
seu velho pai está aqui.
Aproveite a juventude,
ame a paz, honre a virtude,
quando quiser quem lhe ajude,
seu velho pai está aqui.
Aceita-se pitaco:
Segunda-feira, Dezembro 04, 2006
Daqui a poucos dias (01 de janeiro) completam-se 2 anos de administração do prefeito de sua cidade e equipe.
Meio mandato consumido e você já avaliou esse gestor?
[ ] Discute o Orçamento na comunidade e respeita as decisões?
[ ] Está pagando o salário aos funcionários?
[ ] Melhoraram os serviços de saúde?
[ ] Criou propostas/programas/projetos/alternativas para empregos e geração de renda?
[ ] Está preocupado com o desenvolvimento sustentável?
[ ] Vê a cultura como algo além de datas festivas e shows de inaugurações de obras?
[ ] Faz o que compete à prefeitura, na limpeza urbana?
[ ] É um governo transparente? Você sabe quanto ele gasta, como e em que?
[ ] Tem parentes empregados em cargos de confiança?
[ ] A verba da educação está sendo utilizada na educação?
[ ] A merenda melhorou? Os professores são valorizados?
[ ] As escolas têm recebido a atenção necessária?
[ ] As praças são cuidadas, as árvores respeitadas, os espaços públicos estão acessíveis?
[ ] Implantou ou manteve políticas especiais para idosos, crianças e pessoas portadoras de deficiências?
[ ] Construiu novas obras que trarão melhor qualidade de vida para a comunidade?
[ ] As comunidades rurais e o homem do campo, em especial o pequeno produtor, têm recebido a atenção e apoio necessários?
[ ] A assistência social tem chegado aos que precisam dela?
A responsabilidade do cidadão com o governo de seu município não acaba no ato do voto, deve ser um exercício diário e permanente.
Querer um lugar melhor para viver exige muito de cada um de nós.
Olhe ao seu redor. Está satisfeito?
Se a resposta é NÃO é porque todos estão fazendo pouco ou poucos estão fazendo o que é necessário.
Aceita-se pitaco:
Domingo, Dezembro 03, 2006
Porque hoje é o primeiro domingo de dezembro,
o primeiro dos cartões natalinos de Raimundo:
montagem a partir de foto publicitária da Rare Clothes
Aceita-se pitaco:
Domingo, Dezembro 03, 2006
Entre o bordado, a bala e a prece
Lampião e seu bando transfiguravam para a eternidade o Ser Sertanejo.
Imagem na exposição sobre o Cangaço, no MIS-SP. Clica aqui pra ver outras imagens da exposição.
E nem duvide, o sertanejo é um iconoclasta.
Por isso tome lá este clássico do cordel,
A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO:
Um cabra de Lampião
por nome Pilão Deitado
que morreu numa trincheira
um certo tempo passado
agora pelo sertão
anda correndo visão
fazendo malassombrado.
E foi quem trouxe a notícia
que viu Lampião chegar
o inferno nesse dia
faltou pouco pra virar
incendiou-se o mercado
morreu tanto cão queimado
que faz pena até contar.
Morreram a mãe Conguinha
o pai Forrobodó
cem netos de Parafuso
um cão chamado Cotó
escapuliu Boca Ensoça
e uma moleca moça
quase queimava o totó
Morreram cem negros velhos
que não trabalhavam mais
um cão chamado Traz Cá
Vira-Volta e Capataz
Tromba Suja e Bigodeira
um cão chamado Goteira
cunhado de satanás.
Vamos tratar na chegada
quando Lampião bateu
um moleque ainda moço
no portão apareceu:
Quem é você, cavalheiro?
Moleque, eu sou cangaceiro:
Lampião lhe respondeu.
- Moleque, não; sou vigia
e não sou seu pareceiro
e você aqui não entra
sem dizer quem é o primeiro:
- Moleque, abra o portão
saiba que sou Lampião
assombro do mundo inteiro.
Então esse tal vigia
que trabalha no portão
dá pisa que voa cinza
não procura distinção
o negro, escreveu não leu
o macaiba comeu
ali não se usa perdão.
O vigia disse assim:
fique fora que eu entro
vou conversar com o chefe
no gabinete do centro
por certo ele não lhe quer
mas conforme o que disser
eu levo o senhor pra dentro.
Lampião disse: vá logo
quem conversa perde hora
vá depressa e volte já
eu quero pouca demora
se não me derem ingresso
eu viro tudo asavesso
toco fogo e vou embora.
O vigia foi e disse
a satanás no salão:
saiba a vossa senhoria
que aí chegou Lampião
dizendo que quer entrar
e eu vim lhe perguntar
se dou-lhe ingresso ou não.
- Não senhor, satanás disse
vá dizer que vá embora
só me chega gente ruim
eu ando muito caipora!
eu já estou com vontade
de botar mais da metade
dos que tem aqui pra fora.
- Lampião é um bandido
ladrão da honestidade
só vem desmoralizar
a nossa propriedade
e eu não vou procurar
sarna pra me coçar
sem haver necessidade.
Disse o vigia: patrão
a coisa vai arruinar
eu sei que ele se dana
quando não puder entrar
satanás disse: isso é nada
convide aí a negrada
e leve os que precisar
- Leve cem dúzias de negros
entre homem e mulher
vá lá na loja de ferragem
tire as armas que quiser
é bom avisar também
pra vir os negros que tem
mais compadre de Lucifer
E reuniu-se a negrada
primeiro chegou Fuchico
com o bacamarte velho
gritando por Cão de Bico
que trouxesse o Pau de Prensa
e fosse chamar Tangença
em casa de Maçarico.
E depois chegou Cambota
endireitando o boné
Formigueiro e Trupe-Zupe
e o crioulo Quelé
chegou Caé e Pacáia
Rabisca e Cordão de Saia
e foram chamar Bazé.
Veio uma diaba moça
com a calçola de meia
puxou a vara da cerca
dizendo: a coisa está feia
hoje o negócio se dana!
E gritou: êta baiana
agora a ripa vadeia!
E saiu a tropa armada
em direção do terreiro
com faca, pistola e facão
cravinote e granadeiro
uma negra também vinha
com a trempe da cozinha
e o pau de bater tempero.
Quando Lampião deu fé
da tropa negra encostada
disse: só na Abissínia
oh! tropa preta danada!
o chefe do batalhão
gritou de arma na mão;
- Toca-lhe fogo, negrada!
Nessa voz ouviu-se tiros
que só pipoca no caco
Lampião pulava tanto
que parecia um macaco
tinha um negro neste meio
que durante o tiroteio
brigou tomando tabaco.
Acabou-se o tiroteio
por falta de munição
mas o cacête batia
negro rolava no chão
pau e pedra que achavam
era o que as mãos pegavam
sacudiam em Lampião.
- Chega traz um armamento!
(assim gritava o vigia)
traz a pá de mexer doce
lasca os ganchos de caria
traz um bilro de Macau
corre, vai buscar um pau
na cêrca da padaria!
Lucifer mais satanás
vieram olhar do terraço
todos contra Lampião
de cacête, faca e braço
o comandante no grito
dizia: briga bonito
negrada, chega-lhe o aço!
Lampião pôde apanhar
uma caveira de boi
sacudiu na testa dum
ele só fez dizer: oi!...
Ainda correu dez braças
e caiu enchedo as calças
mas eu não sei dizer o que foi.
Estava travada a luta
duma hora já fazia
a poeira cobria tudo
negro embolava e gemia
porém Lampião ferido
ainda não tinha sido
devido a grande energia.
Lampião pegou um seixo
e rebolou-o num cão
mos o que; arrebentou
a vidraça do oitão
saiu fogo azulado
incendiou o mercado
e o armazém de algodão.
Satanás com esse incêndio
tocou no búzio chamando
corretam todos os negros
que se achavam brigando
Lampião pegou a olhar
não vendo com quem brigar
também foi se retirando.
Houve grande prejuízo
no inferno nesse dia
queimou-se todo dinheiro
que satanás possuia
queimou-se o livro de pontos
perdeu-se vinte mil contos
somente em mercadoria.
Reclamava Lucifer: horror mais não precisa
os anos ruins de safra
agora mais esta pisa
se não houver bom inverno
tão cedo aqui no inferno
ninguém compra uma camisa.
Leitores, vou terminar
tratando de Lampião
muito embora que não possa
vos dar a explicação
no inferno não ficou
no céu também não entrou
por certo está no sertão.
Quem duvida desta história
pensar que não foi assim
querer zombar do meu sério
não acreditando em mim
vá comprar papel moderno
escreva para o inferno
mande saber de Caim.
José Pacheco
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
01 de dezembro- Dia Mundial de Luta contra a Aids
Este ano a campanha brasileira do Dia Mundial de Luta contra a Aids tem como slogan A vida é mais forte que a aids. O objetivo é reforçar por meio da informação o combate à discriminação, o preconceito e o estigma que envolve a doença. Pela primeira vez a campanha será protagonizada por pessoas comuns que vivem com o HIV.
Mais sobre o Dia Mundial de Luta contra a Aids / sobre Aids:
Como surgiu o Dia Mundial de Luta contra a Aids e o símbolo do laço vermelho
Dia Mundial de Luta contra a Aids em Pernambuco
Portal da AIDS / Governo Federal
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
Mariana e Leonardo solicitam um mico publicável.
Como sou estabanado, atrapalhado, desligado e desmemoriado, eis que quem vos escreve é o REI DOS MICOS.
Sou daqueles estabanados incorrigíveis, que piora quanto mais se esforça para agir com cuidado e atenção. Derrubo, derramo ou quebro quase tudo que chega às minhas mãos; tropeço até nos meus próprios pés; me machuco, me corto e me arranho nas coisas e nas situações mais improváveis. Por conta dessas características motoras e orgânicas tão especiais, os micos são inúmeros.
Alguns deles:
Já trombei a cara num poste, no centro da cidade, com muitas pessoas ao redor presenciando o acontecimento;
Já fiz tudo que é cena de pastelão nas minhas poucas idas à capital, Recife: Caí em escada rolante, derrubei prateleiras de produtos em supermercado, me enganchei minutos intermináveis em roleta de ônibus lotado e trombei inúmeras vezes em portas de vidro, dessas malditas que estão em quase todas as lojas.
Também por ser estabanado, atrapalhado, desligado e desmemoriado nem queiram imaginar quantos micos paguei aprendendo andar de bicicleta (já adulto) e a dirigir.
Foi um período farto.
Ainda hoje admiro a coragem de quem conhece minhas habilidades de motorista e aceita uma carona comigo. Troco os pedais, erro de marcha, dou sinais de luz ao contrário e por amor à sua vida não queira estar perto de meu carro quando invento de dar ré. Felizmente o trânsito da cidade onde moro é calmo, calmo.
Dois micos específicos, para fechar o post:
Certa feita, novamente na capital, fui jantar num restaurante chinês em Boa Viagem, com amigos de Tuparetama.
Para não assustar nosso paladar, pedimos peixe.
Eu gosto de peixe, mas o bichinho é coisa rara nas mesas do Pajeú e tenho traumas seculares por me engasgar duas vezes com espinhas, situações que me deixaram à beira da morte, roxo sem ar, acudido por familiares e vizinhos com sopradas no nariz, farinha seca, banana em rodelas, murros nas costas.
Pois bem, a certa altura do jantar senti uma espetada na goela! Pronto! Levantei-me da cadeira num segundo, derrubei tudo à minha volta, cuspi sobre a mesa o restante da comida que estava na boca, levei as mãos à garganta e saí correndo para o banheiro.
Acho que os fregueses e garçons não entenderam nada ou ficaram assustados, imaginando que eu estivesse envenenado. Como meus amigos já conhecem meu histórico, riram e aguardaram minha volta.
Eu com a cara mais lisa do mundo: Pensei que fosse uma espinha de peixe, mas não encontrei nada na garganta, não.
O outro mico-escândalo eu paguei durante uma missa dominical, na igreja da minha cidade, quando eu ainda me sentia católico e tinha menos de vinte anos.
Um besouro daqueles grandes, pretos e barulhentos entrou por uma das janelas laterais da igreja e veio se estatelar em cima de mim. Não tenho medo de cobras, não tenho medo de sapos, não tenho medo de onça, não tenho medo baratas, não tenho medo nem aversão a nenhum desses bichos que a unanimidade repele. Mas me cago de medo de besouro e tanajura.
Claro que eu me controlo em público para não macular minha imagem, demonstrando o pavor desses bichinhos.
Acontece que naquele momento eu estava cochilando profundamente graças ao sermão do padre, maçante. E acordei com o barulho, com a pancada do bicho. Atordoado, julgando-me sozinho em casa, no reflexo pulei sobre o banco da igreja sacudindo a roupa e gritando desesperado. Interrompi a missa, o sermão, o silêncio da igreja.
Todos se voltaram para mim e ainda hoje lembro a cara dos fiéis, como quem pensa: Realmente esse moço não é normal.
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
PROGRAMAÇO!
Gostas de arte, de dança?
Estás na capital ou perto de lá?
Não percas então o resultado desse trabalho da COMPASSOS, onde tem o dedo dos meus queridos inquietos Tio Branco e Saulo.
EM ANEXO
Teatro Armazém | 20h
24 de novembro a 3 de dezembro de 2006 (sextas, sábados e domingos)
Coreografia: Saulo Uchôa
Trilha Sonora Original: Marcelo Sena
Compassos Cia. de Danças
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
Me Revelar
Composição: C. Oyens e Zelia Duncan
Tudo aqui quer me revelar
Minha letra , minha roupa, meu paladar
O que eu não digo, o que eu afirmo
Onde eu gosto de ficar
Quando amanheço, quando me esqueço
Quando morro de medo do mar
Tudo aqui
Quer me revelar
Unhas roídas
Ausências, visitas
Cores na sala de estar
O que eu procuro
O que eu rejeito
O que eu nunca vou recusar.
Tudo em mim quer me revelar
Tudo em mim quer me revelar
Meu grito, meu beijo
Meu jeito de desejar
O que me preocupa, o que me ajuda
O que eu escolho pra amar
Quando amanheço, quando me esqueço
Tudo em mim quer me revelar.
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
De Geraldo Amâncio:
Eu fui tomar emprestado
Dinheiro num banco em frente
Chegando lá, o gerente
Me interrogou, abusado.
Perguntou se eu tinha gado,
Eu respondi: Tenho não
Quem tem gado é meu patrão;
Eu só tenho sofrimento
E trago meu documento
Na palma da minha mão.
Verso de improviso numa cantoria em Cajazeiras-PB, atendendo ao mote
EU TENHO MEU DOCUMENTO/NA PALMA DA MINHA MÃO
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De Sebastião da Silva:
Essa mulher que foi minha
Provocou minha desgraça
Hoje pela rua passa
Zomba do amor que eu tinha
Dar-lhe um título de Rainha
Era o que eu pretendia
Mas ela não merecia
Viver ao lado de um rei,
A boca que mais beijei
Hoje me nega um bom dia.
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De Jó Patriota:
Eu na derradeira ânsia
Guardarei no coração
As paisagens do sertão
Que contemplei na infância.
Dos ventos, a ressonância;
Das águas, a sinfonia;
As cores do fim do dia,
O rosto da lua nova,
Morrendo levo pra cova
Os sinais da poesia.
Aceita-se pitaco:
Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
foto: Fenapef
Severino Cavalcanti, que não foi eleito e ficou na suplência, pode voltar a ocupar uma cadeira na Câmara Federal, a vaga do deputado sertanejo Gonzaga Patriota, reeleito.
Há rumores de que Gonzaga assumirá uma secretaria no governo de Eduardo Campos.
Nesse caso todos perdem:
Perde quem votou em Gonzaga (e não em Severino) para deputado.
Perde a região já que Gonzaga é um legislador acima da média e voltado para as necessidades locais.
Perde o Brasil com Severino lá novamente.
Aceita-se pitaco:
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