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Terça-feira, Março 28, 2006
Disseram que Raimundo abomina a vereança pelo-que escreveu no textinho anterior. Que nada disso, pois uma figura das que mais simpatizo, embora defunta já, foi justamente vereador. Precussor do moderno humor que se faz na média impressa e televisionada e, vê-se agora, profeta atualíssimo e infalível. Algumas tiradas dele, nosso Barão de Itararé:
> O homem que se vende recebe sempre mais do que vale.
> Quem foi mordido de cobra até de minhoca tem medo.
> Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio.
> Aquele senhor era tão tímido que até tinha vergonha de proceder honestamente.
> Os homens são sempre sinceros. O que acontece, porém, é que às vezes trocam de sinceridade.
> Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.
> O fígado faz muito mal à bebida.
> O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.
> A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas, em geral, enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.
> Com dinheiro à vista toda gente é benquista.
> Se você tem dívida, não se preocupe, porque as preocupações não pagam as dívidas. Nesse caso, o melhor é deixar que o credor se preocupe por você.
> A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.
> Que faz o peixe, afinal?... Nada.
> A sombra do branco é igual a do preto.
> Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
> Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
> Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.
> O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
> Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
> Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
> A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
> Pão, quanto mais quente, mais fresco.
Extraído de "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé",Record, 1985.
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Segunda-feira, Março 27, 2006
A que ponto chegamos! Até o mundinho fexion tá pegando carona na indignação e protestando (com um olho no marqueting e outro no caixa) contra a bandalheira geral na politicalha brasileira. Apesar da cara-de-pau (alguém acredita nas boas intenções de uma campanha de moda?) a idéia agrada pelo humor. Esse bom-humor entranhado na alma brasileira que nos faz rir das próprias mazelas e nos impede de um suicídio coletivo, abismo abaixo. Então ficamos assim: customize seu visual de cidadão politicamente atuante investindo suas economias numa nada popular calça Forum e vamos à luta, burgueses do Brasil!
Haja mesmo muito humor e cara-lisa para acompanhar as peripécias dos nossos representantes políticos:
Na semana passada a União dos Vereadores de Pernambuco se reuniu em Triunfo. Imagine-se o resultado de uma aglomeração de alto nível intelectual dessas, a julgar pela maioria dos vereadores que conhecemos. Esses encontros dos nossos legisladores, que se repetem país afora, devem ter alguma utilidade além daquelas que nós supomos: lazer, descanso, passeio, conversa-fiada, boca-livre. Afinal nunca sabemos quais essas outras possíveis utilidades. No caso do encontro em Triunfo o que ficou, como repercussão, foi uma tal de eleição simulada para governador do Estado, entre os prováveis candidatos. Ganhou esse Eduardo Campos, cria política de Miguel Arraes (a quem envolveu no caso dos precatórios), xeleléu de Lula (como o outro, Humberto Costa) e, pra mim, tão ruim quanto o terceiro candidato, pato de Jarbas, Mendonça Filho...preferiram a tez clara e os olhos verdes de Eduardo aos beiços largos e cabelos crespos de Humberto, mas daqui a alguns meses é atrás do dinheiro de Mendoncinha que muitos correrão.
Por falar em Jarbas, sabe-se que reuniu hoje uma seleta e controlada imprensa pra fazer um balanço do seu governo. Desconversou sobre os altos índices de violência no Estado (a violência cresce mais onde falta tudo) e filosofou sobre os candidatos do PMDB e PSDB à Presidência. Fez um, digamos assim, exame de fezes. E quanto ao balanço dos seus 7 anos no Palácio das Princesas? Ta!. Se balançar muito, balançar com jeitinho, balançar bem balançado..... cai alguma fruta desse mamoeiro-macho?
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Sexta-feira, Março 24, 2006
FOGUETE DE REIS
CASAL E SEU LAR- acrílica sobre MDF/ 40x60cm/março-2006- Trabalho de Tárcio Oliveira, exposto na sede da CREDIPAJEU-Tuparetama.
No derradeiro luar
O sol saiu
Um trovão avermelhado
O sol saiu
Solta fogo do passado
O sol saiu
No peito de quem tá vivo
Salve
Eu quero ver rodar
A planta que vingará
O sol saiu
O medo de lampião
O sol saiu
As dores de Iemanjá
O sol saiu
E a lua quilariou
E eu vi o meu amor
Dentro do carnavá
E haja guerra e haja guerra
Haja guerra no ar
Boa noite senhor e senhora
Eu cheguei agora
Me preste atenção
Nesse mundo de fogo e de guerra
O santo da terra
Tem calo na mão.
[ Lirinha/ Cordel do Fogo Encantado]
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Quinta-feira, Março 23, 2006
BRASIL, 2006......?
As virtudes públicas (dizia o grande filósofo e orador romano) compõem-se das virtudes particulares; ninguém ama a sua pátria senão do modo porque ama seus semelhantes, e ninguém serve a estes senão à proporção que os ama. Quem não é bom amigo, bom pai, bom filho , bom parente, bom esposo, não pode ser bom cidadão. Verdades são estas de todos os tempos e países; mas parece que há no nosso Brasil uma conjuração dos velhacos, egoístas, impostores e tratantes, contra os cidadãos honestos e virtuosos. De ordinário estes jazem escondidos e deslembrados, os benefícios e vantagens do Estado são monopolizados por aqueles espertalhões, que o desfrutam a seu talento e quase sem oposição. E como cessarão entre nós os vícios e crimes, se quotidianamente se vê que estes não servem de empecilho para se conseguirem as melhores coisas da pátria, antes muitas vezes é desatendido o cidadão benemérito e premiado o vadio, o adulador, o intrigante, o valentão, etc. etc.?
BRASIL, 2006? Não:
Padre Lopes Gama O CARAPUCEIRO- 3 de fevereiro de 1843
(O CARAPUCEIRO- Editora Massangana- Recife-PE)
CORRUPÇÃO, MAR-DE-LAMA, IMPUNIDADE, POLITICAGEM.....? Nada mudou, nada muda. TRISTE BRASIL
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Terça-feira, Março 21, 2006
PRA DESOPILAR
O Técnico agrícola Jânio Guedes, de Itambé, morou muito tempo em Tuparetama, a serviço da extinta empresa estadual de extensão rural. Tornou-se pajeuzeiro, aqui casou e constituiu família, fez amigos, entrou pra política e nunca mais perdeu nosso sotaque, mesmo agora morando longe daqui. Na convivência com o povo, sobretudo da zona rural, Jânio ouviu e anotou muitos casos engraçados, pitorescos, folclóricos até. O resultado foi o livro ACONTECEU NO PAJEÚ, já esgotado. É do livro que trago esses três casos a seguir:
VAI CHUVER
No sertão é comum o povo ficar querendo adivinhar chuva, através de experiências, através de plantas, comportamento dos animais, até através do sol e da lua. Outra coisa comum no sertão é dar nomes dos mais variados às partes sexuais, como, por exemplo, chamar de rôla o pênis. Esse costume gera muitos trocadilhos....
Um grupo de senhoras estava lavando roupa em um barreiro, pleno mês de dezembro, uma seca de matar, daquelas que o sertanejo já conhece .De repente, uma das senhoras ouviu uma rolinha branca cantar. Então ela disse:
- Êita comadre, vai chuver no sertão! A rolinha branca está cantando e balançando a cabeça!
A comadre, espirituosa, respondeu sem pestanejar:
- Comadre, num vá se confiar em cabeça de rôla não, que a senhora se estrepa!
COMIDA NO CABARÉ
Certa vez um grupo de amigos bebia em plena terça-feira de carnaval, na cidade de Tuparetama. Ao anoitecer, todos com uma fome de lascar, foram à procura de comida na zona do baixo meretrício, que ficava ali pertinho. Uma ruazinha por trás do cemitério, com 6 ou 7 casebres de um cômodo só.
Chegando lá, dirigiram-se à casa da dona da zona e foram logo perguntando:
-O que tem aí pra se comer?
A dona do estabelecimento, fazendo má (ou boa) interpretação da pergunta respondeu:
-Ninguém meus filhos, pois hoje é dia de festa e as meninas estão todas na rua...
TREPADA DE PORCO
Quando fui candidato a vereador, recebi logo cedo, às sete horas da manhã, a visita de um eleitor na minha casa.
-Bom dia seu Jânio.
-Bom dia...
-Seu Jânio eu queria lhe falar uma coisa. Sabe, eu tenho uma porca de raça lá em casa e a danada entrou no cio. Tava doidinha atrás de barrão. Então eu levei a bichinha na casa de Zé Paulino, um conhecido meu, e o porco dele foi logo subindo na minha porquinha com gosto de gás! Quando o bicho terminou o serviço, o danado do Zé Paulino disse: Uma cruzada deste porco custa, prá você que é meu amigo, quinze mil cruzeiros. Fiquei sem ação, pois não tinha o dinheiro na hora, então, deixei a porquinha no chiqueiro dele e vim aqui para ver se o senhor me ajuda com esse dinheiro, que eu voto no senhor.
Jânio respirou profundamente e respondeu:
-Meu amigo, nesta campanha eu já paguei de tudo: pneu e catraca de
bicicleta, saco de cimento, pilha de relógio, bola de futebol, até armação de óculos. Agora, trepada de porco, é a primeira vez!
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Terça-feira, Março 21, 2006
TUDO AO MESMO TEMPO AGORA
A ideia é maximizar (ô palavrinha feiosa) o potencial do blog, de natureza democrática. Ampliar, nessa espécie de aldeia, nesse blog/flog/portal comunitário a liberdade de expressão e de comunicação. É mais ou menos isso o OVERMUNDO. Eu gostei.
Pra conhecer outros recomendados de Raimundo, trisca aqui
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Domingo, Março 19, 2006
19 de março é uma das datas mais importantes do calendário sertanejo. É neste dia que se decide o destino do agricultor para o restante do ano. Diz a tradição, a sabedoria popular e confirma a experiência (mesmo nestes tempos atuais de tantas mudanças climáticas) que se chover no dia de São José, é sinal de bom inverno; se não, é um aviso de meses sem água caindo do céu. O agricultor reza, olha pro céu e espera chuva. É sob esta expectativa que os sertanejos passarão o dia de hoje. Aqui no interior, não faltarão missas e procissões para agraciar o santo e melhorar as chuvas, até agora abaixo da média.
No entanto, de acordo com as previsões de estudos climáticos para o Nordeste do Brasil, a maior probabilidade é que o período chuvoso (até maio) seja mesmo fraco. É o que se percebe no dia-a-dia do Pajeú, ao contrário do ano passado que recebeu com muitas chuvas a véspera e o dia de São José, garantindo um ano de muitas lavouras e boa produção, além de água em abundância nos poços, cacimbas, açudes e barragens.
A igreja católica celebra esta data com missas, novenas e festas reverenciando o santo, principalmente nas cidades que o têm como padroeiro, caso de Ingazeira e São José do Egito.
Serra de Monte Alegre- foto de Janaylson Daniel Pessoa
Aqui no Pajeú, uma celebração já tradicional é a Missa de São José na capelinha no alto da Serra de Monte Alegre (Iguaracy). Como ocorre todos os anos, é esperado que os agricultores se desloquem de comunidades rurais próximas a localidade para participarem do evento, com um olho no santo e outro nas nuvens do céu.
Reza pra São José? Aqui.
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Sábado, Março 18, 2006
montagenzinha tosca, em cima de desenho de Lenilson. Raimundo indignado e endividado.
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Sábado, Março 18, 2006
Cooperativa de Crédito CREDIPAJEU inaugurou agência em Tuparetama, ontem.
A CREDIPAJEU é a única cooperativa de crédito rural de Pernambuco.
Com sede em São José do Egito, começou com 101 associados e hoje já tem mais de 600 sócios. O dinheiro da cooperativa é usado para financiar a produção e comercialização dos associados.
No sistema financeiro tradicional, mesmo quando se deposita dinheiro em correspondentes bancários, como no Banco Postal ou lotéricas, o valor captado não é reaplicado na região. Ao contrário dos bancos, que não costumam investir em regiões mais pobres, especialmente as rurais, as cooperativas de crédito necessariamente aplicam o dinheiro captado na própria região, estimulando novos negócios.
O sistema financeiro funciona como um vampiro. Ele suga o dinheiro da praça e envia para o Sul do País. Exemplo: Cerca de 16% da poupança é captada no Nordeste, porém a região recebe apenas 7% do crédito. Isso significa dizer que a região mais carente do país, que deveria receber maior incentivo financeiro, acaba financiando o desenvolvimento do sul/sudeste. Com as cooperativas como a CREDIPAJEU, que fixam a aplicação do dinheiro nas suas regiões, isso se inverte estabelecendo um importante caminho para o desenvolvimento. No caso da CREDIPAJEU a maior parte dos financiamentos, mais barato e acessível, foi voltada para pequenos empreendimentos, como criações de cabras e monoculturas.
Saindo Palocci, Raimundo Pajeú para Ministro do Planejamento!
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Terça-feira, Março 14, 2006
Pra não passar em silêncio o dia da poesia.....
A poesia não pergunta, quando vou sair,
pra onde vou,
se volto logo,
se volto um dia,
se preciso ir.
Ela só quer saber se estou levando meu par de asas
E se deixei bem abertas todas as janelas do coração.
[Raimundo Pajeú]
Mas Raimundo não é Poeta. Poeta mesmo, de verdade, desses com P exagerado eu trago alguns abaixo, plantas preciosas que conservo no meu canteiro e admiro todo dia....
Alberto da Cunha Melo, Pernambucano:
ANÔNIMOS
Bem-aventurados os muitos,
em seu tranqüilo anonimato,
que sequer se sabem anônimos,
como a moldura de um retrato
que vi numa aldeia esquecida
do semi-árido, a subida
do inferno cíclico da terra:
uma moldura de madeira
queimada, despojo de guerra
havida no sertão sem nome,
quando o nome de tudo era fome.
..........................
THEY SHOOT HORSES, DON'T THEY?*
(Ao modo de Eliot)
Sim, e não se matam cavalos,
se fraturados, na corrida,
e por que a deixam se arrastar
sangrando, na dança perdida?
Era um filme com Jane Fonda...
Bolsa afogada pela onda
de ambição, entre duas guerras,
quando a fila de ovelhas negras
se curva, na Corte da Terra:
o filme acaba com um tiro,
o mundo (Eliot) "com um suspiro".
*"E não se matam cavalos?": filme dirigido por Sydney
Pollack,
sob o título brasileiro "A noite dos desesperados". Olinda,
22.04.2004.
.......................
Severino Cordeiro de Souza (Biu de Crisanto) Pernambucano de S. José do Egito:
D ú v i d a
Nasci! De onde vim é que não sei,
Enfim também não sei para que vim,
Se vim para voltar para que fiquei
Neste intervalo de incerteza assim?
Nao foi do pó fecundo que brotei,
Nao sei quem tal missão me impôs.
O acaso não foi, já estudei...
Desta incumbência desconheço o fim.
Sou a metamorfose das moneras
Desagregadas nas primeiras eras,
Reunidas hoje nesta luta infinda.
Sou a passagem irreal da forma
Submetida aos desígnios da norma,
Do meu princípio não sei nada ainda.
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Terça-feira, Março 14, 2006
A publicidade de preservativo censurada e o substituto, tapa no preconceito. São Paulo, fevereiro/março de 2006.
A gente achando que vive, aqui no sertão, interior de PE, na idade média.
O respeito à liberdade de ser e de agir como se queira, respeitando as diferenças e as loucuras de cada um ainda custará a chegar em todas as mentes. Um beijo incomoda mais que uma foto de uma arma, que uma cena de violência, que uma criança com fome.
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Quinta-feira, Março 09, 2006
...pois é. Voltei.
TRÊS MULHERES
M. faz planos para o futuro. Está confiante. Suas vontades tão adiadas poderão ser satisfeitas, acredita.
J. tem planos mais imediatos. Também confia. Sempre acredita.
S. planeja às avessas, cisca pra lá e pra cá seus pensamentos, suas idéias, seus desejos. No redemoinho constante da mente a fé se equilibra firme e confiante, é o que deixa a pessoa de pé.
M. tem 49 anos, ainda está longe da aposentadoria diz assim com um tom de triste desengano na voz, mora com os quatro filhos: três homens e uma mulher; com dois netos filhos da sua filha, cada um recebendo a pensão de 20 reais dos pais solteiros, pedreiros; com um gato mistura de siamês e pé-duro, o rabo cotó; numa casa de chão de tijolo, parede mal rebocada, telhado torto, sala-doisquartos-cozinha-banheiro, sem muro.
J. tem 56 anos, aposentada, diz assim com um tom de resignação na voz, mora no sitio com o marido, o filho do meio que não casou e cuida das criações, os retratos de santos, padres e políticos em quadros de molduras humildes na parede branca de cal.
S. tem 20 anos e aguarda. Carta dos irmãos que moram em São Paulo. Convite do namorado que não se decide se quer ou corre.
M. planeja melhorar a moradia. Arrumar o piso, passar cimento. Retelhar, trocar madeiras desenhadas pelos cupins, velhas telhas quebradas. Levantar o muro. Ah, levantar o muro! Ai meu Deus, coisa de nada, dois milheiros de tijolo, 10 sacos de cimento, areia, barro. Os filhos fazem a mão-de-obra. Há dois anos planeja, espera, confia. Suas vontades serão satisfeitas, acredita.
J. se demora na calçada: cedinho da manhã olhando a barra do dia, à tardinha admirando as torres de nuvens no horizonte, à noite assuntando o vento que vem do mato, o círculo na lua, o céu escuro. Haverá bom inverno? Teremos chuvas suficientes? Também confia, também acredita. Vendeu um porco e pagou a aração da terra, de trator, logo após as primeiras chuvas do ano.
S. terminou o ensino médio em dezembro. Não trabalha. Não lê. Não sabe escrever. Não entende o que se passa nos jornais da TV. Gosta das novelas e dos amassos do namorado. Ela quer casar, ele não sabe se quer. Ela quer ir embora pra São Paulo, ele não sabe se deixa. Ela espera. Confia no destino. Confia nos irmãos. Confia no amor do amado. Confia em sua capacidade.
M. faz planos para o futuro. O futuro de julho a setembro. Confia que realizará as melhoras de sua moradia com as ofertas dos candidatos.
J. faz planos imediatos. Aguarda mais chuvas e as sementes prometidas pelo governo.
S. me pediu que comprasse na farmácia, com meu dinheiro [ empréstimo de amigo ] aquele remédio para úlcera, proibido.
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Sexta-feira, Março 03, 2006
Estou em Pasargada, consertando umas camas do poeta
Não morram de saudades,
devo voltar antes de 6 dias se passarem.
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Sexta-feira, Março 03, 2006
A atualidade de HENFIL
Henfil é, pra mim, o melhor cartunista que o Brasil já teve, e continua servindo de ilustração com sua arte e seu humor certeiro para as mazelas nossas de cada dia. Exemplos? Lá vai:
FATO: Prefeituras do Pajeú pagam menos de um salário mínimo aos seus funcionários
REVER HENFIL:
FATO: Violência no campo e impunidades
REVER HENFIL:
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Quarta-feira, Março 01, 2006
Marilene Felinto
Escritora perfeita, jornalista decente, cidadã maiúscula, Marielene Felinto escreve para a revista CAROS AMIGOS.
Para quem não leu o texto da edição de fevereiro, sobre o atendimento do SUS (assim em SP como nas demais localidades brasileiras) vale a pena conferir:
Do desacato a funcionário público
Fui a um posto do SUS de São Paulo, exercer meu direito de obter gratuitamente um medicamento de alto custo. Foi minha primeira passagem pelo Sistema Único de Saúde muito conhecido ainda pelos velhos nomes de INSS, posto de saúde do INSS, ou mesmo do INPS. De fato, podem ter mudado os nomes, mas a coisa em si não deve ter se alterado muito.
Como havia décadas que eu não utilizava o sistema público de saúde, só conhecia o enredo pelo relato da faxineira e pelo noticiário: as filas, o descaso, os maus-tratos, as mortes por falta de atendimento ou por negligência...
Leia o texto completo no sítio da CAROS AMIGOS.
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