Acontecerão durante esta semana (de 26/02 a 02/03 ) as oficinas do Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais - PNC no Pajeú.
O programa, coordenado em Pernambuco pela AMUPE, tem como facilitadores, técnicos da Universidade Federal de Pernambuco e Fundação Joaquim Nabuco.
O PNC é uma ação do Ministério do Meio Ambiente que tem como objetivo fortalecer o Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA) nos municípios, com ajuda dos estados aos quais pertencem.
Através dos cursos os gestores, vereadores, conselheiros municipais e técnicos das prefeituras aprenderão sobre como estruturar os órgãos que compõem 0 SISNAMA no âmbito municipal; as diferentes escalas de planejamento municipal com ênfase na Agenda 21 local; como se realiza o planejamento ambiental participativo; os instrumentos de fiscalização, licenciamento, monitoramento e educação ambiental; e as diversas fontes de recursos disponíveis para ações na área ambiental.
As cidades onde acontecerão as oficinas:
SERRA TALHADA (com participantes locais e dos municípios BETÂNIA, CALUMBI, FLORES, TRIUNFO e SANTA CRUZ DA BAIXA VERDE);
AFOGADOS DA INGAZEIRA (com participantes locais e dos municípios IGUARACY, INGAZEIRA, SOLIDÃO, QUIXABA e CARNAÍBA);
SÃO JOSÉ DO EGITO (com participantes locais e dos municípios ITAPETIM, BREJINHO, TABIRA, SANTA TEREZINHA e TUPARETAMA).
As informações do relatório científico
sobre o aquecimento global se confirmam a cada momento.
O assunto está nos meios de comunicação e na boca do povo.
O poeta popular antenado já fez seu cordel:
A TERRA ESTÁ ESQUENTANDO E A CULPA É DO HOMEM
Walter Medeiros - Natal-RN
Muita coisa nesta vida
Já conseguiu me chocar
Me fez rir e fez chorar
E continuei na lida;
Mas agora vou narrar
O pior fato que há
Na nossa terra querida.
Não é de se apavorar
Mas é bem preocupante
Pois um problema gigante
Acabam de anunciar;
É dose prá elefante
Pois deu no alto-falante
Que a terra vai esquentar.
Não se trata de rompante
Pois quem disse foi a ONU
Nem se deve perder sono
Ou ver algo delirante;
Se a terra não tem dono,
Dióxido de carbono
É pior que meliante.
Falam também no metano
E no óxido nitroso
Um efeito horroroso
Para o habitat humano;
O calor calamitoso
Que já é muito danoso
Aumenta a cada ano.
Não é conto de trancoso
Mas é de bem e de mal
Catástrofe ambiental
É bom ficar bem cioso;
Rádio, tv e jornal
Divulgaram tudo igual
Sem ter mais vez prá dengoso.
E olhe que é parcial
Essa conclusão enfática
Sobre mudança climática
Deveras fenomenal;
Parece coisa galática
Mas tem uma matemática
Ruim prá planta e animal.
Explicando a problemática
Dizem que em dois mil e cem
Ninguém viverá tão bem
Já dá prá pensar na prática;
Esse tempo que se tem
Terá quatro graus além
Numa era sorumbática.
Falam em mais um porém
Sobre as camadas polares
Que perderão seus lugares
Pois esquentarão também;
Derreterão sob olhares
Dos filhos que aqui deixares
E a quem queres muito bem.
Vai ter coisa até nos mares
Que já têm seus perímetros
Cinquenta e oito centímetros
Já te mandam calculares
Usarão até multímetros
Pois a tensão dos voltímetros
Será medida nos ares.
Mais de dois mil cientistas
Assinam o relatório
Não é um dado simplório
É de encher as revistas
Apesar do falatório
De um ianque inglório
Prá quem tudo é terrorista.
Nada ali é irrisório
Pois as secas e tufões
Terão mais situações
Sem nada de ilusório;
Diversas populações
Terão suas aflições
Afetando até cartório.
O aquecimento global
Não é nada por engano
É culpa do ser humano
Que destruiu manguezal;
Desse jeito, ano a ano
Algo pior que profano
Fez assim o maior mal.
Já faz quase doze anos
Que se falou em Kyoto
Não era coisa de boto
Mas sobre erros humanos
Gases, fumaça, esgoto,
Não é coisa de garoto
Mas faltam americanos.
O tal do efeito estufa
Cujo estrago já se viu
Teve ilha que sumiu
Onde tambor não mais rufa;
Geleira também caiu
E muita gente sentiu
Quem escapou disse ufa!.
O relatório saiu
Algo precisa mudar
Para da terra cuidar
Começar pelo Brasil
Bastava não desmatar
Para muito ajudar
Já seria nota mil.
Quando quiser viajar
Evite ir de avião
Pois em qualquer estação
Ele vai gás espalhar;
Andar de carro, então,
Se não tiver solução,
Motor sempre revisar.
Dessa forma, cidadão,
A mudança começou
Nosso clima esquentou
Temos um novo padrão
Tempestades de horror
Muita gente já pegou
E pode ter mais, então.
A ciência observou
Que essa variação
Teve a participação
Do homem que relegou
Por causa de ambição
Destrói da terra o pulmão
Que Deus um dia criou.
Não é qualquer impressão
Capaz de gerar enganos
Pesquisaram em mil anos
Região por região
Então daqui a cem anos
Caso sejam mais insanos
Não sei como será não.
A ONU tem grande plano
Para enfrentar o problema
Estuda um grande esquema
Até o fim deste ano
Uma coisa prá cinema
Que pode levar o lema
De salvar o ser humano.
Pensando nesse sistema
Vamos raciocinar
Como essa terra será
Na praia de Ipanema
Quarenta graus ao luar
Mais quatro graus aumentar
Aí vai ser um problema.
Acho que vou terminar
Deixo a bola com você
Para não enlouquecer
Vou parar de matutar;
Para quem conseguiu ler
Quero apenas dizer
Que só quem viver verá.
Irreverência e humor inteligente fazem bem quando andam de mãos dadas. Como quando nos deparamos com as fantasias muito originais que são a graça do carnaval do rua de Recife e Olinda ou como quando visitamos Malvados, uma tirinha que merece uma pasta reservada no meu dinossauro-pc, donde selecionei essas abaixo, pra você fazer uma idéia do que estou falando, se ainda não conhece.
Sim, é CARNAVAL, e no Brasil o ano só começa depois da folia. Mas não nos esqueçamos a lição do alemão pois se o reinado do Momo é breve, as quartas-feiras de Cinzas são muitas e prolongadas...
Mais Brecht:
A infanticida Marie Farrar Tradução de Paulo César de Souza 1
Marie Farrar, nascida em abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
2
Ela porém, diz, não deixou de pagar
O combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
3
Mas as rezas foram de pouca ajuda, ao que parece.
Havia pedido muito. Com o corpo já maior
Desmaiava na Missa. Várias vezes suou
Suor frio, ajoelhada diante do altar.
Mas manteve seu estado em segredo
Até a hora do nascimento.
Havia dado certo, pois ninguém acreditava
Que ela, tão pouco atraente, caísse em tentação.
Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
4
Nesse dia, diz ela, de manhã cedo
Ao lavar a escada, sentiu como se
Lhe arranhassem as entranhas. Estremeceu.
Conseguiu no entanto esconder a dor.
Durante o dia, pendurando a roupa lavada
Quebrou a cabeça pensando: percebeu angustiada
Que iria dar à luz, sentindo então
O coração pesado. Era tarde quando se retirou.
Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
5
Mas foi chamada ainda uma vez, após se deitar:
Havia caído mais neve, ela teve que limpar.
Isso até a meia-noite. Foi um dia longo.
Somente de madrugada ela foi parir em paz.
E teve, como diz, um filho homem.
Um filho como tantos outros filhos.
Uma mãe como as outras ela não era, porém
E não podemos desprezá-la por isso.
Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados.
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
6
Vamos deixá-la então acabar
De contar o que aconteceu ao filho
(Diz que nada deseja esconder)
Para que se veja como sou eu, como e você.
Havia acabado de se deitar, diz, quando
Sentiu náuseas. Sozinha
Sem saber o que viria
Com esforço calou seus gritos.
E os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos precisamos de ajuda, coitados.
7
Com as últimas forças, diz ela
Pois seu quarto estava muito frio
Arrastou-se até o sanitário, e lá (já não
sabe quando) deu à luz sem cerimônia
Lá pelo nascer do sol. Agora, diz ela
Estava inteiramente perturbada, e já com o corpo
Meio enrijecido, mal podia segurar a criança
Porque caía neve naquele sanitário dos serventes.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
8
Então, entre o quarto e o sanitário diz que
Até então não havia acontecido a criança começou
A chorar, o que a irritou tanto, diz, que
Com ambos os punhos, cegamente, sem parar
Bateu nela até que se calasse, diz ela.
Levou em seguida o corpo da criança
Para sua cama, pelo resto da noite
E de manhã escondeu-o na lavanderia.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
9
Marie Farrar, nascida em abril
Falecida na prisão de Meissen
Mãe solteira, condenada, pode lhes mostrar
A fragilidade de toda criatura. Vocês
Que dão à luz entre lençóis limpos
E chamam de abençoada sua gravidez
Não amaldiçoem os fracos e rejeitados, pois
Se o seu pecado foi grave, o sofrimento é grande.
Por isso lhes peço que não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.
Realizado em 1961/62, referente à Batalha que derrotou o exército holandês que ocupava Pernambuco, em meados de 1600. É composto por placas cerâmicas, cobrindo a parede lateral da Rua das Flores, exclusiva de pedestres, no centro do Recife. A obra mede 30 metros de comprimento por 2,5 de altura.
PORQUE ACHO QUE A SITUAÇÃO VAI PIORAR CADA VEZ MAIS.....
Lembro de ter visto há mais de 20 anos cartazes na cidade com os preceitos ecológicos de Padre Cícero. O sertanejo que é religioso e tem profunda devoção ao Padrinho Cícero do Juazeiro nem por isso mudou seus costumes e sua prática agressiva contra o meio ambiente... as consequências estamos vendo e vivenciando.
Um amigo do sudeste me enviou por e-mail essas pérolas segundo ele ditas pelo deputado Clodovil em entrevista recente à Rádio Tupi.
Será verdade mesmo? É difícil acreditar que alguém exponha tão descaradamente os aleijões da personalidade:
Casamento entre homens é pura safadeza...e se depender de mim estão ferrados..não vou apoiar projeto nenhum.
Ainda bem que Deus me curou dessa vida infeliz que levava pois foi graças e ela que fiquei doente e tive que fazer a operação..foi um castigo de Deus.
30 mil reais é tão pouco... Se ainda fosse uns 30 milhões de dólares... Por 30 mil reais vender um país, você está louco? Cada um pesa o dinheiro na sua balança. E a minha precisa de muito.
Não vou me sujar por pouco. Vou me sujar por alguns milhões de dólares, é claro. Pego esses milhões de dólares e faço a benemerência que eu quiser. E dane-se a retranca. Não tenho filho, não tenho amante, não tenho mulher, não tenho nada. Isso não é desonestidade. Isso é oportunidade.
Evidente que foi (armado o ataque contra as torres gêmeas) pelos próprios americanos, não seja idiota, é como o holocausto, você acha que não tinha nenhum judeu manipulando isso por debaixo do pano? .
Diante de colocações como essas, a gente até consegue engolir como humor o preconceito presente em montagens assim. publicadas no blog Kibe Loco.
Kibe Loco é um cara que apesar de muito criativo, quase sempre descamba para o machismo e a homofobia.
Meus amantes não são nobres nem abastados:
Rurais já tive alguns, o resto são operários,
Idade: quinze a vinte anos mal amamanhados,
De força assaz brutal e modos ordinários.
Saboreio-os no seu fato azul de cotim;
Não cheiram muito bem, mas respiram saúde;
Num passo algo pesado, e lesto, mesmo assim,
Pois jovens são, um passo elástico e rude;
De malícia crepita um franco olhar de gozo,
E a frase, que é não só ingênua, mas sagaz,
Lhes sai - e juntamente um palavrão gostoso -
Da fresca boca em sólidos beijos voraz.
O seu pau vigoroso, e o rabo prazenteiro
Meu cu e meu caralho à noite sempre excitam;
Suas carnes - de dia ou sob o candeeiro -
Meu lasso, mas tenaz, desejo ressuscitam.
Nádegas, alma, mãos, meu ser todo em roldão,
Dorso, memória, pés, peito, nariz, orelha
E a fressura, tudo entoa uma canção
E uma roda viva em mim se destrambelha.
Canção, dança de roda, ambas uma demência
Mais qu'infernal, divina, ou vice-versa, enfim,
Onde voo e mergulho, e numa turbulência,
No bafo e suor seus já me perco em mim.
Meus dois Charles, um, jovem, tigre, olhar de gata,
Rosto quase infantil e corpanzil de hussardo;
O outro, um mocetão, só descarado acata
O meu rego a correr, bem fundo, pró seu dardo.
Odilon, um catraio, homem na compleição,
Seus pés amam os meus, que dos dele por sinal
Mais presos estão, mas mais do que o restante, não.
Tudo adorável é, mas os pés sem igual!...
Meigos, fresco cetim, dedos delicadíssimos
Sob a planta do pé e plos artelhos vêm,
Té ao peito arqueado, em beijos estranhíssimos,
Doces, de quatro pés q'alma por certo têm!
Antoine, ilustre já pela sua enorme piça,
Ele, meu supremo Deus e meu rei Salomão,
Com a pupila azul meu coração atiça
E verruma o meu cu com seu mortal espigão.
Paul, esse atleta loiro, uns peitorais sublimes,
Peit'alvo, com botões duros qu'eu sugo, além
Doutra ponta; François, flexivel como vimes,
Pernas de bailarino, um bom malho também!
Auguste, que se faz mais macho dia a dia
(Bem bonito era ele quando quis ser dos meus);
Um tanto puta, Jules, o da beleza fria;
D Henri gosto, mas quê? vendo um magala, adeus!
E vós todos - em fila, ou grupo irrequieto,
Ou sozinhos - visão clara dos dias idos,
do presente paixão, porvir que aponta, erecto,
Nunca sereis demais, meus já milhentos queridos
IV
Eu vou suar a camisa
pelo nosso interior,
pra escutar cantador,
que pensa, sente, analisa,
toca, canta, realiza,
num instante uma poesia,
eu sinto aquela magia,
como festa da novena.
Toda distância é pequena
pra se escutar cantoria.
ZC
Eu vi na televisão
e me aprontei num segundo,
depois disse a todo mundo,
que ia escutar baião,
poeta cantar canção,
o coqueiro da Bahia,
poemas com melodia,
de caboclo e da morena.
Toda distância é pequena
pra se escutar cantoria.
TENHA AMOR, QUEIRA BEM E VIVA AUSENTE,
PRA SABER QUANTO DÓI UMA SAUDADE
Zé Cardoso (ZC) e Ivanildo Vila Nova (IV)
IV
Pra quem gosta a saudade é mais que drama,
é a dança cruel e agressiva,
que saudade não é uma missiva,
nem bilhete, nem carta e telegrama,
não se volta o período de quem ama,
da segunda ou da terceira idade,
o que vale é ter continuidade,
e o calor é que mais atrai a gente.
Tenha amor, queira bem e viva ausente,
pra saber quanto dói uma saudade.
ZC
A saudade também é homicida,
que não poupa o desejo de ninguém,
bate forte na hora que ela vem,
não me beija na hora da partida,
no meu peito ela abriu uma ferida,
mas ninguém cura essa enfermidade,
a tristeza agoniza e me invade,
dói demais do que íngua e dor de dente.
Tenha amor, queira bem e viva ausente,
pra saber quanto dói uma saudade.
IV
Um abraço se teve em abundância,
como é bom para cantador ou monge,
se quer ver como é ruim, vá para longe,
para ter da saudade a ressonância,
que amor não se nutre com distância,
é difícil se ter a intimidade,
que ausência não vale a metade,
que amor só se faz pelo presente.
Tenha amor, queira bem e viva ausente,
pra saber quanto dói uma saudade.
ZC
Eu pensava que amor era ilusão,
pesquisar eu procuro mas não vejo,
que eu provei do pecado e do seu beijo,
eu vivia pegado em sua mão,
o meu pai já sofreu de solidão,
meu irmão já sofreu na mocidade,
meu avô com oitenta de idade,
foi amar, hoje em dia está doente.
Tenha amor, queira bem e viva ausente,
pra saber quanto dói uma saudade.
IV
A saudade é a nossa companhia,
ninguém diz se é viúva ou se é virgem,
ninguém sabe qual é a sua origem,
nem a árvore da genealogia,
o seu mundo, a sua biografia,
seu país, o estado e a cidade,
se é feia, bonita ou divindade,
se é triste, sisuda ou é contente.
Tenha amor, queira bem e viva ausente,
pra saber quanto dói uma saudade.
Foto aérea de São José do Egito-PE, no sertão do Pajeú
As novas dimensões da ruralidade são analisadas no livro O Futuro das Regiões Rurais, de autoria de Ricardo Abramovay, professor da FEA - Faculdade de Economia e Administração, da Universidade de São Paulo.
Nesta entrevista para a revista GLOBO RURAL o professor mostra o quanto estavam equivocadas as previsões de que o rural acabaria conforme avançasse o processo de desenvolvimento:
Globo Rural - Qual é o futuro das regiões rurais? Ricardo Abramovay - A revalorização das regiões interioranas é um dos mais importantes fenômenos demográficos, sociais e culturais do início do milênio. Nossa civilização habituou-se a enxergá-las como local da produção agropecuária, no qual os imperativos da eficiência seriam incompatíveis com a manutenção de um tecido social rico e diversificado. Os últimos anos vêm mostrando fontes de desenvolvimento associadas não só à manutenção da integridade ambiental e paisagística das regiões interioranas, e uma imensa capacidade de organização para fazer destes atributos as bases da geração de ocupação e renda. A explosão do ecoturismo e do turismo rural é apenas um exemplo deste processo.
GR - Seria uma reinvenção do rural? Abramovay - De certa forma, sim, uma vez que o rural cada vez menos se associa ao estritamente agrícola. E o agrícola cada vez mais será marcado por exigências de qualidade, de distinção e de atributos ligados à localização e aos conhecimentos de cada região. Isso já é comum na Europa: o produto rural (agrícola e não agrícola) é valorizado por sua capacidade de exprimir uma tradição, um modo de fabricação em que se recuperam culturas e se colocam à mostra estilos de vida que os habitantes dos grandes centros têm buscado. Estes novos atributos tornaram equivocadas as previsões de que o rural acabaria conforme avançasse o processo de desenvolvimento. Assim como nas cidades não existem apenas indústrias, no meio rural, tampouco, não há só agricultura e agricultores.
GR - A participação da agricultura familiar é essencial para o Brasil rural? Abramovay - Ela garante a existência de um tecido social que vai gerar diversas atividades além da própria agricultura. Não é um momento transitório que será suprimido quando o progresso chegar. Isso não aconteceu nos países desenvolvidos e não vai acontecer aqui. A agricultura familiar conseguiu se afirmar em setores extremamente modernos: na produção de aves, suínos, fumo, produtos ligados a mercados internacionais. De maneira geral, no Brasil, esse segmento responde por cerca de um terço do valor da produção de toda a agricultura. No coração do capitalismo mundial - as planícies norte-americanas, centro e norte da Europa - a agricultura é de natureza familiar e o trabalho assalariado excepcional.
GR - Apesar disso, a unidade familiar de produção sofre com o êxodo rural.
Abramovay - O êxodo rural hoje é muito menor que no passado. Há diversas regiões rurais que passam por surpreendente processo de crescimento populacional, com base, muitas vezes, em migração de retorno, daqueles que perderam seu emprego nas metrópoles e voltam ao lugar de origem. Mas é claro que existe ainda uma migração rural importantíssima. E ela atinge fundamentalmente os jovens e especialmente as meninas. Hoje, o campo brasileiro passa por um duplo processo: de envelhecimento e de masculinização. O mesmo ocorreu na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, as moças tendem a freqüentar mais a escola que os rapazes e a educação acaba servindo como uma espécie de passaporte para o ingresso em ambientes urbanos de trabalho. Um estudo que realizei com a Epagri, no oeste de Santa Catarina e junto a filhos de agricultores familiares, mostra que ficam na propriedade os que têm a pior escolaridade. Ora, são estes os que terão responsabilidade de gestão da unidade produtiva, no futuro. A deficiência educacional, neste caso, é grave porque significa que o patrimônio nacional fundiário está sendo gerido por pessoas de capacitação muito baixa. Nosso estudo mostra que dois terços dos jovens entre 15 e 24 anos tinham apenas até a quarta série primária. Portanto, o desafio da agricultura familiar é educacional, pois ela só será competitiva se os seus gestores receberem uma formação que os capacite a integrar os mercados dinâmicos.
GR - Por que a multifuncionalidade na agricultura está sendo tão discutida? Abramovay - É um tema que os europeus estão trazendo para a discussão da OMC - Organização Mundial do Comércio. Consiste no fato de que as sociedades contemporâneas vão retribuir ao agricultor por atividades que o mercado é incapaz de pagar, como a preservação ambiental, por exemplo. A Europa está diante de um duplo desafio: manter seu lugar no mercado mundial e atender a uma pressão crescente de sua opinião pública por definições de políticas voltadas ao desenvolvimento rural. Os negociadores brasileiros junto à OMC têm razão de temer que a multifuncionalidade seja usada como arma protecionista. A verdade é que a produção em larga escala de grãos e carnes nos países centrais só sobrevive com farta injeção de dinheiro público. A briga na Europa é entre os setores que desejam que estes recursos se voltem a serviços sociais e ambientais relevantes - e que não deveriam prejudicar os países em desenvolvimento - e os maiores produtores, que não sobrevivem sem subvenções. A multifuncionalidade pode ser, de fato, areia nos olhos para encobrir interesses protecionistas. Mas traz à tona uma pergunta mais interessante: o que querem as sociedades contemporâneas de seu meio rural? Apenas produção agropecuária? A resposta dos europeus e as políticas que eles têm colocado em prática mostram que o meio rural pode oferecer um conjunto de bens, de serviços e de valores fundamentais para a civilização do século 21.
Aceita-se pitaco:
Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos.
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrôgancia, a glória
Enchem a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder
bravio da humanidade.
Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi!
Antônio Conselheiro!
Todos os panteras negras,
Lampião sua imagem e semelhança!
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia. Aceita-se pitaco:
Não são somente os vestibulares brasileiros que oferecem boa munição para humoristas.
Li no Blog de Marcelo Coelho da Folha estas questões feitas a candidatos a entrar em Oxford e Cambridge (2006).
Por que não temos apenas uma orelha no meio do rosto?
Você é seu corpo?
O que é uma árvore?
Que porcentagem da água do mundo está contida no corpo de uma vaca?
A Revolução Francesa terminou?
Se você fosse um rato, o que seria a coisa mais importante para você?
Se você tivesse uma varinha mágica e pudesse erradicar todos os problemas do terceiro mundo, embora isso causasse o fim de toda pesquisa médica, você faria isso?
Se houvesse três lindas mulheres nuas à sua frente, qual você escolheria?
Como você projetaria um cérebro mais aperfeiçoado?
Lista completa na revista Harpers de dezembro de 2006
Primeira página do DIÁRIO DE PERNAMBUCO de ontem (quinta-feira). Bons olhos e muitos floreios para a visita do nosso conterrâneo presidente, que veio dar o pontapé inicial do PAC em SUAPE, ao lado do seu querido Eduardo Campos, governador.
Aceita-se pitaco:
Revista CONTINENTE MULTICULTURAL - Documento
ARRAES, a construção do mito. Para ajudar a entender nossa história recente e a política nacional.
Com muitas fotos inéditas, incluindo a da capa, de Roberto Arrais.
Aceita-se pitaco:
HOJE em todo o mundo, haverá grande mobilização. Cidadãos pela cura do planeta!
A Aliança pelo Planeta (grupo francês de associações ambientalistas) lança um apelo simples a todos os cidadãos de se dedicarem por 5 minutos à Terra.
Todo o mundo apagará por 5 minutos suas lâmpadas e aparelhos domésticos entre 19:55hs e 20hs (horário de Brasília).
Não se trata apenas de economizar eletricidade nesse dia, mas também chamar a atenção da mídia e daqueles que têm poder de decisão sobre o desperdício de energia e a urgência de agir!
Cinco minutos de repouso para o Planeta Terra.
Não toma muito de seu tempo, não custa nada, e isso mostrará aos candidatos à presidência da França (e também a outros candidatos e atuais presidentes de outros países) que a mudança climática é uma questão que deve ser levada em conta em qualquer decisão política.
Por que dia 1 º de fevereiro? Nesse dia será apresentado na França um relatório feito por um grupo de técnicos em climatologia da ONU. Os cidadãos não podem deixar escapar a ocasião para manifestarem sua opinião sobre a urgência com que deve ser tratada a mudança climática mundial.
Se todos participarem, essa ação poderá aparecer na mídia e ter peso político.
Há um ano surgia RAIMUNDO PAJEÚ, o blog.
Denunciando a situação de irregularidades, desmatamento, soterramento e abandono do Rio Pajeú.
Lamento informar que a situação ainda não melhorou.
Mais: lamento informar que a situação piorou.
Rio Pajeú 2006: lixo, carniça e cercas de arame farpado;
Rio Pajeú 2007: mais lixo, mais carniça e mais cercas de arame farpado
Aceita-se pitaco:
Este blog completou um ano,
mais precisamente na semana passada (16).
Tenho me comportado como um péssimo pai ultimamente, sem tempo e sem olhos para o filho. Causas:
Estudando para novo vestibular [ é, resolvi voltar à sala de aula ] e mais trabalho, novos compromissos, atividades extras... preciso me virar em dez para garantir uns trocados que paguem as contas da bodega no fim do mês, assim, sobram poucas horas à noite para o sono e a doação de sangue às muriçocas. Ou seja, nada de internet, nada de blog.
Nessa correria toda acabei esquecendo o aniversário do blog, ó-praí !
E eu que tenho tanto a agradecer pelas amizades encontradas graças a ele, pelo aprendizado, pelas oportunidades, pelas cancelas abertas, pelas leituras descobertas, pelos escritos recebidos...
e pela surpresa do número de acessos, uma ruma de visitas que me espanta toda vez que olho o contador, um tanto de gente maior que a população da cidade onde moro. Isso é muita coisa prum matuto recuado quenem eu.
Frei Caneca - Revolução de 1817 (1981) Óleo sobre tela
6 x 4,5m
Instalado na Casa de Cultura de Recife
2007 é ano do centenário de Cícero Dias o gênio que sabia combinar as mais genuínas tradições pernambucanas com a essência universal da arte. ...
Aceita-se pitaco:
Os irmãos Nonatos são os responsáveis pela arejada com certa renovação no mundo da poesia popular.
Donos de grande sucesso no Nordeste, se destacam no meio tradicional com seus versos de improviso, o repente, em Festivais, Congressos e Cantorias. Sem abrir mão do acompanhamento da viola.
Mas a grande contribuição dos dois artistas é no mundo da música. Compositores inspirados, fazem uma ponte entre os versos, ritmos e cadências da poesia popular com os temas, sons e estilos da música pop, de consumo, sem abrir mão da qualidade. Às vezes flertando com o brega, às vezes com o (in)digestível sertanejo, conseguem agradar a todos sem desagradar ouvidos e mentes mais exigentes.
Os meninos agora têm um site que reflete esse estilo novo-repente, pena que não colocaram as letras das suas músicas, ou seja, aquilo que eles fazem de melhor.
Aceita-se pitaco:
A Região Sertão do Pajeú ,em Pernambucano, tem área de 8.689,7 km2. A região é constituída por 17 municípios, com uma população de mais de 297.494 habitantes.
Predomina, em quase toda região o clima semi-árido, sendo a exceção a pequena área de micro-clima de altitude, onde está situado o município de Triunfo, com forte vocação turística.
O principal acesso ao Sertão do Pajeú se dá através da BR 232 e das PEs-320 (Serra Talhada-São José do Egito) e 360 (Ibimirim-Floresta-Petrolina), entre outras. Nestas rodovias circulam praticamente toda a produção e abastecimento.
O Sertão do Pajeú também registra grandes carências nas condições de vida de sua população e relativa escassez na oferta de recursos naturais.
DESAFIOS DO PAJEÚ
No Sertão do Pajeú observam-se problemas como: ausência de tratamento de esgotos, precárias condições de habitação e de saneamento, além da falta de local adequado para destinação final do lixo.
Em algumas áreas o abastecimento d¿água apresenta problemas, devido à presença de poluidores junto aos mananciais ou à sua composição química; nas áreas rurais não existe rede de distribuição nem de tratamento d¿água. A poluição dos rios é provocada em particular pelo lançamento diretamente de dejetos residenciais e industriais.
A precariedade dos sistemas de abastecimento d¿água fica mais evidente nos longos períodos de estiagem. Com a diminuição da água ofertada e colapso do sistema, a população rural sofre mais significativamente, tendo que se deslocar a grandes distâncias em busca de água para o seu consumo ou passa a depender do carro-pipa
Também o modelo de exploração da agricultura e da pecuária é feito à base de tecnologias inadequadas, ( sobretudo com a prática da queimada) causando perda de cobertura vegetal,além da degradação e erosão dos solos.
A taxa de analfabetismo da região (33,2%) é mais elevada que a de Pernambuco (24,5%) .
A taxa de domicílios com abastecimento d¿água inadequado é de 27,5%, é a quinta pior entre as regiões e superior a de Pernambuco que é de 17,0%.
A taxa de mortalidade infantil da região (33,0 em mil nascidos vivos) é a quinta mais elevada entre as regiõesdo estado e superior à de Pernambuco (29,8).
AS HORAS DE QUEM ESPERA SÃO AS MAIS LONGAS DA VIDA
SD
Esperar quem vem chegando
quando existe uma demora,
essa é a pior hora,
pra o coração latejando,
porque quem vive esperando,
uma pessoa querida,
até mesmo na partida,
o ritmo no peito altera.
As horas de quem espera
são as mais longas da vida.
RC
Toda espera sempre cansa,
quando a pessoa não vem
e é triste esperar alguém,
que não manda nem lembrança,
a mãe espera a criança
desde o dia que engravida,
pela placenta envolvida,
no ventre aonde se gera.
As horas de quem espera
são as mais longas da vida.
SD
Na hora que o correio,
quando a alma está farta,
que o amor manda uma carta,
dizendo porque não veio,
depois que passa do meio
da lista da carta lida,
uma frase inesquecida
dizendo, o amor já era.
As horas de quem espera
são as mais longas da vida.
SD
Eu já esperei de um jeito,
que o coração se cansou,
minha amada não voltou,
eu fiquei insatisfeito,
pra crucificar meu peito,
em minha a dor fez guarida,
desse tipo de ferida
ninguém cura nem supera.
As horas de quem espera
são as mais longas da vida.
TODO DIA EU MEDITO COM SAUDADE
MINHA INFÂNCIA VIVIDA NO SERTÃO
SD
Hoje eu posso dizer que eu sou feliz,
todo dia eu me lembro, quando acordo,
do sertão que vivi e eu recordo,
o jumento, a cangalha e os barris,
uma canga, a correia e seus canzis,
quatro deles prendendo o barbatão,
o azeite oleando o meu cocão,
eis os números da minha identidade.
Todo dia eu medito com saudade
minha infância vivida no sertão.
RC
Não me esqueço da árdua trajetória,
todo dia saindo pra o trabalho,
com a roupa molhada de orvalho,
com a mão estirada à palmatória,
esse é um pedaço da história,
que eu não posso prender na minha mão,
mas se eu for remexer meu coração,
inda dá pra salvar mais da metade
Todo dia eu medito com saudade
minha infância vivida no sertão.
Aceita-se pitaco:
As homenagens ao livro e autor ( 80 anos este ano ) começaram em 2006, com a adaptação e montagem do espetáculo homônimo por Antunes Filho com o Grupo de Teatro Macunaíma e Centro de Pesquisa Teatral. A montagem foi vencedora do Prêmio Bravo 2006 e Associação Paulista dos Críticos de Arte, como Melhor do ano.
Ariano e seu diretor LFC, em visita à cidade cenográfica, em Taperoá
Estou curioso para ver o resultado desse trabalho e para conferir a participação do meu conterrâneo e amigo Flávio Rocha, do elenco. O maluco passou por cá esta semana, exausto depois dos três meses de confinamento e entrega ao seu personagem, um repentista violeiro amigo do personagem central, Quaderna. Conversamos sobre o trabalho, projetos, sobre Ariano e A PEDRA DO REINO, que nunca li, confesso ( E devo continuar sem conhecê-lo por um bom tempo porque é livro é caro, acima das atuais limitadíssimas condições financeiras de funcionário municipal ) . A ignorância minha só não é total porque ganhei uma agenda caprichada do Centro SUVAG de Pernambuco/CHESF com ilustrações e trechos do livro.
Flávio Rocha
Abaixo, matéria do Jornal do Commércio e entrevista com Flávio:
O Sertão na tela e na vida Publicado em 24.12.2006
Flávio Rocha e Abdias Campos, sertanejos de nascimento, são destaque na microssérie global A Pedra do Reino
( FABIANA MORAES )
Sob o sol a pino de Taperoá (Cariri, Paraíba), dois pernambucanos vestidos com uma pesada roupa medieval-regionalista, própria da estética armorial, sentem-se completamente à vontade. Nascido em Tuparetama, Sertão, a quase 400 quilômetros do Recife, o ator Flávio Rocha e o poeta e repentista Abdias Campos, da região do Cariri, são aluno e mestre, respectivamente. Fazem parte do núcleo de protagonistas da microssérie global A Pedra do Reino, baseada no romance homônimo de Ariano Suassuna, que teve suas filmagens finalizadas na última sexta-feira. A raiz dos dois mostra que seus personagens - Lino Pedra Verde e João Melchíades - são quase uma extensão deles mesmos.
- Tinha lido A Pedra do Reino duas vezes e fiquei maravilhado e desesperado. O encantamento veio com aquele universo que Ariano nos mostra. O desespero, porque eu sempre quis ser um artista e criar um mundo próprio. No livro, vi que Ariano havia feito isso muitos anos antes - , diz Rocha, que há anos trabalha como ator em São Paulo, onde realizou diversos trabalhos com Zé Celso Martinez e a Cia. Livre de Teatro. A experiência teatral, aliás, não impede que o ator assuma sua vocação para a TV e o cinema. - Sempre quis trabalhar na televisão, não nego e não tenho nenhum problema com isso. Essa produção é extraordinária, esteticamente e socialmente - , diz Flávio, que também é jornalista. Na microssérie, seu personagem, Lino Pedra Verde, aprende o ofício do repente com o poeta popular João Melchíades, uma espécie de padrinho de Quaderna, principal personagem do livro de Ariano. Abdias, que desde a infância declama seus versos pelo Nordeste afora, diz que interpretar o mentor do herói de mente maravilhosa não foi nenhum desafio. - A poesia matuta requer interpretação. Aos oito anos, eu declamava meus versos no Sertão. Adolescente, subia em caminhões, na Feira de Caruaru, para mostrar meus versos - , relembra ele.
A relação entre Melchíades e Lino saiu das telas e ganhou o papel: Rocha e Campos escreveram um cordel (A peleja de Lino Pedra Verde e João Melquíades a cerca do reino descoberto), que deve ganhar impressão em breve.
- Escrevemos um cordel juntos - , diz Flávio Rocha, que diz ter reencontrado sua vocação para poesia popular após o papel. Ele recebeu ajuda de Abdias, que o mostrou a métrica e a rima da arte do repente, enquanto Flávio orientou algumas das interpretações do agora amigo. - Cada um contribuiu com o outro - , comenta Abdias Campos.
A Pedra do Reino estréia em meados de 2007. Dirigida por Luiz Fernando Carvalho, a microssérie custou R$ 500 mil por capítulo (são oito). Ariano Suassuna acompanhou diversos momentos da produção estava presente nos últimos dias da filmagem. Adaptada por Bráulio Tavares, Luís Alberto de Abreu e pelo próprio diretor Luiz Fernando Carvalho, a série faz parte do projeto Quadrante.
Taperoá era como você imaginava? Era. É parecida com Tuparetama, só que mais velha, clássica. Tuparetama é mais recente, mas o comportamento das pessoas é bem semelhante. Foi maravilhoso visitar os lugares citados no livro. Tudo existe de verdade.
O que foi mais difícil nas gravações em Taperoá? E o que o fascinou mais? Difícil foi ficar isolado, sem ter notícia do mundo e ficar separado de quem amo. Foram três meses confinado, mas se não tivesse sido assim o resultado não seria o mesmo. Era uma concentração absurda. Me fascinou ter encontrado Luiz Fernando Carvalho, que me abriu a válvula para a imaginação, para liberar o inconsciente. Também vibrei por fazer uma obra de Ariano que foi lançada no ano em que nasci.
Foi seu primeiro contato com Ariano? Não. Havia lido A iniciação à estética, livro que me fez querer entender a arte, me abriu a cabeça para a possibilidade de ser artista. Depois li as peças. Há um ano li A pedra do reino, nem sonhava com a série.
Qual sua ligação com Tuparetama e como imagina a recepção da série lá? Minha família mora lá, por isso sempre visito a cidade no fim do ano. Sou o mesmo cara de lá, só que mais experiente, com mais possibilidades. E provavelmente agora com mais trabalhos. É claro que continuarei o mesmo, com os mesmos amigos. O bom é que minha família me verá atuando. Meus pais me viram aqui no Recife uma vez. Quero levá-los de novo ao teatro.
Tuparetama tem gosto de quê? De pão com doce, que era o lanche da escola, e de buchada com pinga.
Você é jornalista. Sente falta de escrever? Sempre gostei de escrever quadrinhas, poesia e recuperei isso agora com o personagem. Adolescente, queria ser um gênio da raça, sonhava com isso. Depois vi que escrever era uma tarefa heróica. Hoje ainda corro para os livros, esboço roteiros de curtas, muito mais como exercício de dramaturgia. Pretendo escrever ainda e dirigir.
A saudade do Recife é grande, ou já se acostumou com São Paulo? Se pudesse, morava em todas as cidades do mundo. Sonhava muito isso quando era criança. Saía andando por todas as cidades do mundo, correndo, mas sempre acordava no meio do caminho, frustrado, triste por não ter visto todas elas. Quando estou em São Paulo, quero vir pra cá, morro de saudades dos amigos, das bibliotecas da UFPE, onde me perdia nos livros. Aqui, quero voltar correndo para lá.
Qual o seu cartão-postal do Recife? O rio e a ponte, que levam direto para João Cabral (de Melo Neto). Fecho o olho e a imagem vem: aquela parte ali defronte ao São Luiz, onde vi cinema pela primeira vez.
Um desejo para 2007: Muito trabalho, saúde e amor. Mais escolas e comida para as crianças também.
O carteiro trouxe hoje à tarde o presente de AMIGO SECRETO da brincadeira entre blogueiros mediada pelo SÍNDROME DE ESTOCOLMO.
Fui sorteado pela Liliana Bettina de Florianópolis.
O presente é essa belezura aí acima, com figuras do Boi de Mamão, folguedo tradicional do lugar.
Um grande beijo agradecido para Liliana e um ano novo supimpa!
Chove no Pajeú. Noite de chuva forte, desde as 19:00 horas.
2006 não poderia ter encontrado um modo melhor para se despedir.
Isso sim é reveilão bão.
PASSAGEM DO ANO Carlos Drummond de Andrade
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
AS FORÇAS DA NATUREZA João Nogueira/Paulo Cesar Pinheiro
Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal
E o mar
Com suas águas bravias
Levar consigo o pó dos nossos dias
Vai ser um bom sinal
Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal
E os ventos vão sufocar o barulho infernal
Os homens vão se rebelar
Dessa farsa descomunal
Vai voltar tudo ao seu lugar
Afinal
Vai resplandecer
Uma chuva de prata do céu vai descer
O esplendor da mata vai renascer
E o ar de novo vai ser natural
Vai florir
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô
Das ruínas um novo povo vai surgir
E vai cantar afinal
As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval.
Mãe e filho/ obra do Mestre Vitalino / Abril Imagens
TRECHOS DE MORTE E VIDA SEVERINA João Cabral de Melo Neto
- Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
-Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
-Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
-Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprar
em grosso tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
-Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?
[ UMA MULHER, DA PORTA DE
ONDE SAIU O HOMEM,
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ ]
- Compadre José, compadre,
que na relva estais deitado:
conversais e não sabeis
que vosso filho é chegado?
Estais aí conversando
em vossa prosa entretida:
não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?
Saltou para dento da vida
ao dar o primeiro grito
e estais aí conversando
pois sabeis que ele é nascido.
[ COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS
TRAZENDO PRESENTES PARA
O RECÉM-NASCIDO ]
- Minha pobreza tal é
que não trago presente grande:
trago para a mãe caranguejos
pescados por esses mangues
mamando leite de lama
conservará nosso sangue.
-Minha pobreza tal é
que coisa alguma posso ofertar:
somente o leite que tenho
para meu filho amamentar
aqui todos são irmãos,
de leite, de lama, de ar.
-Minha pobreza tal é
que não tenho presente melhor:
trago este papel de jornal
para lhe servir de cobertor
cobrindo-se assim de letras
vai um dia ser doutor.
-Minha pobreza tal é
que não tenho presente caro:
como não posso trazer
um olho d'água de Lagoa do Cerro,
trago aqui água de Olinda,
água da bica do Rosário.
-Minha pobreza tal é
que grande coisa não trago:
trago este canário da terra
que canta sorrindo e de estalo.
-Minha pobreza tal é
que minha oferta não é rica:
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.
-Minha pobreza tal é
que melhor presente não tem:
dou este boneco de barro
de Severino de Tracunhaém.
-Minha pobreza tal é
que pouco tenho o que dar:
dou da pitu que o pintor Monteiro
fabricava em Gravatá.
-Trago abacaxi de Goiana
e de todo o Estado rolete de cana.
-Eis ostras chegadas agora,
apanhadas no cais da Aurora.
-Eis tamarindos da Jaqueira
e jaca da Tamarineira.
-Mangabas do Cajueiro
e cajus da Mangabeira.
-Peixe pescado no Passarinho,
carne de boi dos Peixinhos.
-Siris apanhados no lamaçal
que já no avesso da rua Imperial.
-Mangas compradas nos quintais ricos
do Espinheiro e dos Aflitos.
-Goiamuns dados pela gente pobre
da Avenida Sul e da Avenida Norte.
[ FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE
VIERAM COM PRESENTES, ETC ]
-De sua formosura
já venho dizer:
é um menino magro,
de muito peso não é,
mas tem o peso de homem,
de obra de ventre de mulher.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é uma criança pálida,
é uma criança franzina,
mas tem a marca de homem,
marca de humana oficina.
- Sua formosura
deixai-me que cante:
é um menino guenzo
como todos os desses mangues,
mas a máquina de homem
já bate nele, incessante.
-Sua formosura
eis aqui descrita:
é uma criança pequena,
enclenque e setemesinha,
mas as mãos que criam coisas
nas suas já se adivinha.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é belo como o coqueiro
que vence a areia marinha.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como o avelós
contra o Agreste de cinza.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
belo como a palmatória
na caatinga sem saliva.
-De sua formosura
deixai-me que diga:
é tão belo como um sim
numa sala negativa.
-é tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
-Belo porque é uma porta
abrindo-se em mais saídas.
-Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
-é tão belo como as ondas
em sua adição infinita.
-Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
-Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
-Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
-Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
-E belo porque o novo
todo o velho contagia.
-Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
-Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
-Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
[ O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE
ESTEVE DE FORA,
SEM TOMAR PARTE DE NADA ]
-Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida
como a de há pouco, franzina
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto,
um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo.
Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora
que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia,isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas.
Conceição disse baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-